terça-feira, 3 de novembro de 2009

O GIRASSOL, poemas de Garibaldi Otávio

O GIRASSOL

A Vincent Van Gogh

O duro olhar dos homens e o dos touros
empreitam a mansa tarde com rancor.
Então a fúria explode. A mansa tarde
explode a sua fúria numa flor.

A flor não é bem flor. A flor é sol
que deu seus amarelos a uma flor.
E quando a manhã nasce e a tarde desce
se fundem a flor, o sol e o girassol.

Não se soube jamais se é canto ou ave
ou instrumento que dedos selvagens tangem.
Não se soube que ouro, que deus sonoro
fez sua forma de espanto tão suave.

No duro olhar dos homens a flor é alfanje
com que vão decepar a cor da tarde.
No duro olhar dos touros a flor é sangue
que veste de escarlate a lâmina da espada.

Ao girassol (que ferocidade o ateia ?)
traídos e em silêncio amaremos
a sua cor na tarde como quem bebe
o corpo azul da água (sem sangue) limpa.


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DOIS MURAIS DE BRENNAND


I - NO AEROPORTO DOS GUARARAPES

Pastor não há
mas há sua flauta
no trinar breve
da suave boca.

O campo sonha
o homem quando
o sono é o canto
que lhe arrebanha

e lhe dá o ouro
que o faz cantar
e além da sombra
o ofuscará,

que corre em campos
depois cabelos
e carne e riso
da companheira,

despindo o morno
para ser calma
no afago, e rio
no se deitar.

Se deita, o rio
se para e escuta
a flauta leve,
tão pura e breve.

E os bois repousam
o seu repouso
no cantar longo
dos seus pescoços.

Só os chifres pairam
nos dorsos puros,
ferindo, tensos,
cansaço e angústia

de espera que há
na cama, corpo
simples que, em pouco,
será desfeito,

como desfeito
será no pranto
todo o silêncio
desse cantar.

Pastor não há,
mas há sua flauta.
Modula o dia
que o vai deixando.


II - NO HOTEL SÃO DOMINGOS

Braços erguidos da terra,
os pés fincados no chão,
esta mulher colhe um fruto
que nasce da própria mão.

Colhe um fruto, colhe o mundo
no dia da criação,
colhe da terra molhada
aroma e fecundação.

Colhe no corpo os limites
do barro em modelação,
o Barro nascendo, vida
- a morte quando em função.

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A UMA CATALÃ

Pinto como Joan Miró :
linhas simples do teu rosto,
perfil de poeira e pó,
pintado do lado oposto.

Pinto como João Cabral
lava as palavras, a seco,
como quem lambe teu sal
meditarrêneo, teus becos.

Pinto como Lorca pinta,
teu sortilégio cigano,
quase um toureiro na tinta,
quase morte, quase insano.

Sempre te pinto aos pedaços,
como espelho que se quebra,
como quem mastiga os traços,
como Picasso, sem regra.

Salvador Dali te rouba
dos delírios. Que se exponham,
lado limpo do pecado,
os teus martírios. Anjos sonham.

Quando eu te vejo daqui
destas visões, aturdido,
pinto como Debussy
pintava a Espanha, de ouvido.

Pinto como um violeiro
que te ouvisse, como te ouvi
no teu sotaque maneiro
rudezas de Ouricuri.

Pinto tua tela Matisse
que mistura claridade,
como se a tela te visse,
por trás da cor, de verdade.

Sujo-me todo de sol
como quem mexe com tinta
só de luz feita, arrebol
quando se enfeita, se pinta.


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(Poemas do livro O GIRASSOL,
de Garibaldi Otávio
- Companhia Editora de Pernambuco - CEPE,
Secretaria da Casa Civil / Governo de Pernambuco,
Recife, 2009).




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