segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

ATO DE NATAL, de Hermilo Borba Filho

Quando a trupe chegou o tomara-que-não-chova ainda não estava armado, mas foi obra dum instante e o cirquinho logo rodeado de tudo quanto era menino da zona se viu, anunciando a Pantomima do Nascimento, que já se estava no dia vinte e quatro, bespa do vinte e cinco, para a noite a pantomima para o dia a Nova-Maior, tomem cantos e danças e passas e doces até na casa dos pobres, perus de papos recheados em casa dos magníficos; e no cirquinho, às seis, Bitom o Palhaço, na casa dos sessenta, chegou, postou-se diante do espelho quebrado, começou a pintar a cara, às sete terminou com cinquenta; às oito, tomando uma cachaça, estava com quarenta - era aquilo todos os anos, na noite do vinte e quatro para a aurora do vinte e cinco - entrou no picadeiro, às nove, com trinta; às onze, diante do espelho, era Bitom o Palhacinho, com dez; tirou a tinta, foi caminhando para a infância, os artistas abriram alas, ele foi andando e ficando mais menino, atravessou o picadeiro e desapareceu atrás das cortinas, a Trapezista nova perguntando ao Mestre-de-Cerimônias : Para onde ele vai ?, ao que o Mestre-de-Cerimônias, fazendo uma cara de espanto, respondeu-lhe meio áspero, meio gozador : Oi, não sabe ?, Ele vai nascer.



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Do livro AS MENINAS DO SOBRADO,
Editora Globo, Porto Alegre, 1976)

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