sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

POESIA - PRA VIVER A VIDA ! (Jaci Bezerra)



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Tudo me dói como o mar, luminosíssima e constante presença,
sussurrando no meu coração com o farfalhar luminoso das avencas.
De manhã cedo saía com meu pai, esmagando a grama fria e orvalhada,
eu conversando muito, e ele pouco falando ou não dizendo nada.
Era aquela maneira que meu pai tinha de gostar de mim,
embora muita coisa a gente tivesse deixado de conversar assim.
Só bem mais tarde, por um motivo que continuo a ignorar,
a infância me abandonou e nunca mais quis voltar.
Apesar disso,se em certas ocasiões a vida me ameaça,
pelas ruas do meu coração a minha infância traquinando passa.

Com as emoções de infância o amor construiu uma secreta escada,
é pena que os seus degraus me levem sempre ao nada.
À beira-mar, à sombra dos coqueiros, fiz meu o corpo de uma mulher antiga,
escutando, ao possuí-la, um trêmulo rumor de rosas e cantigas.
Durante três verões a cativei na paisagem serena e marinha,
ela amava a outros homens, no entanto afirmava que era apenas minha.
A pedra dessa traição dentro do peito feria como um gume,
e o meu irmão mais velho uma noite explicou-me que eu sentia ciúmes.
Não recordo em que tempo meus pés me levaram para os bares e ruas,
mas sei que certas madrugadas tinha desejo de abraçar qualquer lua.



(Revista POESIA - PRA VIVER A VIDA !,
Nordestal Editora, Recife, abril /1980)


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JACI BEZERRA nasceu em Murici (AL) no ano de 1944.
Poemas publicados em jornais recifenses e em antologias
brasileiras. Publicou os seguintes livros de poesia :
VENEZA INCENDIADA (1967), ROMANCES (1968, LAVRADOURO
(1973), A ONDA CONSTRUÍDA (1973). Os versos publicados
nesta página são um fragmento do seu longo poema-livro
INVENTÁRIO DO FUNDO DO POÇO (Edições Pirata, Recife,
1979).

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