segunda-feira, 18 de outubro de 2010

A INTOCÁVEL BELEZA DO FOGO, de Geraldino Brasil (2)

O POEMA


O poema não deve ser um conjunto de palavras como este
dando uma definição dicionária.
Nem oferecendo uma definição.

Deve ser melhor
do que bom apenas
e não se acabar como o sorvete
que se tomou sem a namorada.

As palavras procuradas pelo seu poeta
não serão daquelas que o leitor
tenha de consultar dicionário
ou, pelas outras do poema,
o deixam desinteressado do trabalho.

O poema deve menos falar e mais dizer.
Pode ter de gritar
a quem tem ouvidos moucos.
Pode falar a quem sabe
ouvir silêncios de uma pessoa que conversa.


************************


O POVO



Pelos caminhos do mundo
um homem, uma mulher, um menino,
o hoje mais antigo da Terra,
o povo.
Homem, mulher,menino,
multiplicação,
multidão,
povo.
O povo manso, submisso,
impertinente, respeitador,
triste, crédulo, desconfiado,
tolo, esperto, formiga que carrega
uma folha verde maior que ele.
É lago e mar selvagem, pede, se dobra,
se levanta, indolência e trabalho duro,
o povo vive,
o povo sobrevive,
povo.
O povo é a fraqueza que cria o poder.
O povo é o rebanho que dorme.
O povo é a boiada que estoura.
É o sonho que sonha.
O povo vive,
o povo sobrevive,
trágico,
cômico,
mágico,
lírico,
épico,
infinito,
povo.


******************************


MAIOR DISTÂNCIA


A maior distância
da Terra é entre duas
portas de apartamentos



*************************


TEU AMOROSO SORRISO


No silêncio se fecunda
a meditação
da teoria.
Mas há o que prescinde de pensamento e palavra,
é a própria beleza,
como a intocável do fogo, como a inesquecível
do teu sorriso amoroso
que hoje procuro na cadeira vazia
do outro lado agora tão distante
daquela nossa mesa.




(do livro A INTOCÁVEL BELEZA DO FOGO,
de Geraldino Brasil
- lançamento da Companhia Editora de Pernambuco - CEPE/
Secretaria da Casa Civil / Governo de Pernambuco,
nesta terça-feira, 19/outubro,às 19 horas,
na Livraria Cultura, Recife Antigo)

Nenhum comentário: