sexta-feira, 19 de novembro de 2010

PERNAMBUCO, TERRA DA POESIA - Juareiz Correya (1951)

PASSAGEM NA PONTE



estou aqui, no meio da ponte
no raio do dia (ou no açoite da noite)
no vão desta vida, no passo das águas
amanhecendo de tarde sem hora de anoitecer desperto
com a mesma sede afogada na garganta
despejando as enchentes da fala nos rios.
estou aqui, em cima da ponte
não sou boi nem voarei além do Equador,
não vou correr da polícia,
não tenho argumentos nem malícia,
não vou pular frevo ou maracatu,
não sou punguista nem sou camelô.
dentro da ponte é onde estou
e não me interessa se você para ou passa
se você pensa qualquer coisa ou se acha graça
e desconversa direto antes de chegar na esquina.
não me interessa se você é macho ou fêmea,
ou se investe porrilhões e tantos na Bolsa de Valores.
interessa é que eu estou aqui
na ponte,
sem pregão, sem comício, sem saber direito
como lhes falar de encontros e entregas e dores
e vocês têm uma pressa infernal que atrapalha
com os instantes contados por um sistema canalha,
dando graças ao seguro de todos os dias,
estúpida promessa,
para que os porcos não lhes cortem as cabeças.
vocês têm famílias, posses e silêncios horríveis
para cultivar e multiplicar a vida inteira.
(e nada como palavras, só palavras, que tão aéreas soam,
como as que eu te ofereço, irmão,
dispara jato mais veloz no sangue do coração).
vocês não ouvem nada, eu sei,
e nada têm para dizer também.
igualmente motorizados dentro da cidade das horas
vocês não dispõem de tempo,
vocês pensam que aceleram sua própria sorte,
vocês sabem apenas que nós somos inúteis, jamais necessários.
no passeio da ponte sou eu quem falo
e aqui me acendo, me dou e me escangalho
aqui sou poeta, oferta, passagem.


(in POESIA VIVA DO RECIFE, 1996)



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CANÇÃO PARA VICTOR JARA



"o canto tem sentido
quando palpita nas veias
de quem morrerá cantando
as verdades verdadeiras"
(VICTOR JARA)




morrerei cantando, Victor Jara.
depois dos dedos cortados
as mãos sangrarão ritmos e cordas
e a canção elevará minha voz.
e me cortarão os pulsos
e os tocos dos meus braços
sem instrumentos sustentar
rubros vão balançar
sem minha canção parar.
meus dentes serão quebrados
na minha garganta prensados
na garganta entulhados
no meu canto sufocado.
meu rosto disforme de insultos
virado na sanha dos brutos
vai minha vontade cantando
na cara do povo mostrar.
além da loucura e dos urros
da soldadesca assassina
além de chutes e murros
e da bala que elimina
- nesta praça de esportes
onde nos jogam com a morte -
meu povo não calará,
minha voz vai mais cantar,
meu canto não morrerá.
morrerei cantando, Victor Jara.


(in AMÉRICA INDIGNADA, 1986)




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Transcrito da antologia
PERNAMBUCO, TERRA DA POESIA
- organização de Antonio Campos
e Cláudia Cordeiro
(2a. edição, Carpe Diem Edições e Produções,
Recife, PE, 2010)

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