domingo, 4 de dezembro de 2011

DEUS NO PASTO, de Hermilo Borba Filho : Volume 4 de "Um Cavalheiro da Segunda Decadência"



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Só existe um caminho, meu senhor. O resto são veredas.
(Um cego pedinte)


     "Eu olhava pela janela e via a campina vazia, somente poucas árvores balançadas pelo vento forte que vinha do mar, um vago cheiro de maresia, porque o mangue, mais por efeito do rio, à mercê das marés baixas ou altas, conseguia sufocar qualquer odor que não fosse o da lama onde se misturavam patas de caranguejos, olhos de peixe, folhas mortas, calor de sol, frieza de estrelas, mijo, fezes, restos de comida, sangue de várias procedências; e houve um eco que eu jamais saberia de onde se originara, de que grito, por que grito, destorcido impossível saber se de gozo ou raiva assassina, talvez mesmo um simples som sem intenções, dado por dar, ato gratuito sem nenhuma intenção de ressonância, mas me havia atingido e me obrigara a desviar a atenção do trabalho na manhã do sábado.  E por que entre tantos ruídos caseiros, tantas interrupções, passagens, bater de palmas, somente o eco tivera o poder de me afastar do esquema em que  trabalhava havia horas, na ingente tarefa de preparar uma aula que não me interessava o mínimo ?
O sinal era característico : uma vaga vontade de defecar, um leve frio na espinha, um breve, mas intermitente desejo de dormir ou me aferrar a um livro, mas não, teria de dar picaretadas no papel, alinhando nomes, datas, interpretações, talvez o som que produzira o eco houvesse mesmo saído dos meus dedos, indo ao obstáculo e voltando aos meus ouvidos, poderia ser à noite, mas não outra vez, escapara pela manhã e me convidava a vagabundagens, no aparador a bebida só esperava mesmo pelo gelo, e era outra coisa, a garganta se contraía na vontade quebrando uma disciplina indispensável à conquista do imediato, eu poderia deixar de pensar na segunda-feira de alunos, cadernetas, quadro negro, didascálias, prólogos, párodos, ágons, corifeus, onkos, para me voltar ao mundo corrente de carne e massas, cama fofa, bate-papos, um joguinho para matar o tempo, ainda espantado com a mudança, no trabalho de readaptação, não se tratava propriamente de redescobrir a região, mas de incorporá-la ao meu gosto já tão abalado, vendo as coisas como se elas fossem, ao mesmo tempo, amigas e inimigas, considerando uma áfrica o exército de muriçocas, baratas, lagartixas, não adiantava estar no Recife se na Madalena não morava num casarão, mas numa daquelas casas recém-construídas, de paredes ásperas e cores agressivas, salvando-se apenas a acácia no meio do gramado, embora eu preferisse amarelo-ouro e não daquele róseo desbotado, mas em todo o caso ainda era melhor ver formiga em luta com as pétadas do que somente um muro ocre, muito novo, o mofo ainda longe. Comprazia-me no vôo dum mangangá com o zumbido que me transportava para os embola-bostas da infância e jactava-me de albergar, por breves instantes, um colibri parado no espaço tal a velocidade das suas asas, sugando o mel de uma flor vagabunda. Tentava localizar-me, depois de tantos anos, no tempo e no espaço..."



(Fragmento inicial do romance DEUS NO PASTO, de Hermilo Borba Filho - Volume 4 da tetralogia "Um Cavalheiro da Segunda Decadência", Edições Bagaço, Recife, PE, 2010./ Lançamento nesta segunda-feira, dia 5/dezembro/2011, às 19 horas, na FUNDAJ (Rua Henrique Dias, 609, Derby, Recife, PE)


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OPINIÕES SOBRE O AUTOR 

"Como romancista, Hermilo Borba Filho é figura singular num dos mais ricos filões literários do Brasil que é a literatura nordestina.  Sem ser estritamente regionalista mas mergulhado até à medula na cultura de sua região, seus romances parecem representar uma nova perspectiva literária, sólida, indestrutível entre a fase do realismo crítico, típico dos anos 30, época de uma literatura explicitamente social, exsudando indignação política e bastante ideologizada, e uma literatura menos historicista, mais individual e com um gosto libertário que não se envergonha frente às paixões humanas, frente ao prazer." (MÁRCIO SOUZA)


"Logo em seguida Hermilo corta a própria pele com a tetralogia UM CAVALHEIRO DA SEGUNDA DECADÊNCIA, formada pelos textos de Margem das Lembranças (1966), A Porteira do Mundo (1967), O Cavalo da Noite (1968) e Deus no Pasto (1972). Esse talho de afiado bisturi revela o homem diante de todos os seus medos, aflições, imperfeições e reviravoltas. Numa época de descrenças e mentiras o protagonista assume suas verdades e se ajoelha diante de Deus."  (MAURÍCIO MELO JÚNIOR)


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