sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

A PORTEIRA DO MUNDO (romance), de Hermilo Borba Filho




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Se viste, é como se não houvesse visto, e se ouviste, sê surdo.
(HERMES)


     "Água, água, água, mais água. Outra cidade-água, era inútil, dela não podia fugir, meus olhos se habituavam à chatice das superfícies planas, niqueladas ou azul-esverdeadas, porque então tinha, não somente as águas brancas do rio, mas as do mar, para mim um pouco repugnantes, sempre em movimento, para baixo, para cima, para os lados, iam e vinham, agrediam, tornavam-se oleosas, mudavam de cor, invadiam, infiltravam-se, recuavam como cadelas com um pontapé no traseiro para, logo depois, avançar raivosas, ululantes. Eu estava suspenso no ar, era alado, por isto podia observá-las muito bem.  Balançava o rabo e, colocando o queixo nas mãos, olhava a cidade, também como a outra inundada pelas águas : dos mangues fedorentos de onde surgiam os caranguejos de patas peludas, obscenas, proféticos; dos braços de mar com jangadas decorativas feitas de propósito para a paisagem; dos dois rios que se acasalavam, subindo e descendo na força das marés, com mariscos, barcos, baronesas, pontes, edifícios refletidos, atletas, pescadores.  Nas nesgas de terra, nas pequenas ilhas que as baronesas houveram por bem deixar aos homens vinham, do centro para a periferia, os seres humanos : meninos de barrigas grandes e mãos sujas, mulheres feias, negros e mulatos musculosos, adolescentes arrogantes hábeis no manejo das peixeiras, desembocando na rua colorida e oriental com gritos, música, dança, lenços de seda, bibelôs, louça, frutas, sobretudo as frutas, que davam os cheiros melados e os gostos afrodisíacos, toda a multidão invadindo o mercado, indiferente ao odor dos peixes de barrigas abertas e aos pretos camarões recurvos, meditativos na morte, às carnes sangrentas de bois, cabritos e bodes, assustando as galinhas e os pombos, mergulhando as mãos nos sacos de feijão, farinha e arroz, comprando miçangas, pela garganta abaixo fazendo descer os copázios de grosso caldo-de-cana, engolindo cachaça, tudo às gargalhadas, aos berros, aos cantos, cuspindo nas cuias dos mendigos e parando na roda para ouvir o último romance queixoso, monocórdico, das aventuras e desventuras de uma Ismália em preto e branco, recortada em ângulos, um punhal à altura do peito esquerdo; traziam a lama viscosa nos pés descalços e benziam-se automaticamente defronte das igrejas geladas ao sol ardente rodeadas de casinhas coloridas, uma delas em azul forte, debruçada na pequena varanda uma moça de amarelo, seios fartos, deixando ver as coxas pelas aberturas de tábuas gastas por chuvas de cem invernos..."



(Fragmento inicial do romance A PORTEIRA DO MUNDO, de Hermilo Borba Filho - Volume 2 da tetralogia "Um Cavalheiro da Segunda Decadência" - Edições Bagaço, Recife, PE, 2010 -. / Lançamento nesta segunda-feira, dia 5/dezembro/2011, às 19  horas, na FUNDAJ (Rua Henrique Dias, 609, Derby, Recife, PE)

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OPINIÕES SOBRE O AUTOR 

"Seu estilo vibrátil e a técnica de composição tentada desde o primeiro romance atingem aqui a plenitude e a desenvoltura conferidas por mão de mestre do ofício.  Seu romance é, sem dúvida, um corajoso testemunho de vida autêntica e profunda..."  (NELLY NOVAES COELHO)

"... comecei a ler os volume de seu Cavalheiro da Segunda Decadência e - confesso - fiquei empolgado por eles.  Era o meu primeiro encontro com um romancista de garra." (ÉRICO VERÍSSIMO)





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