quinta-feira, 10 de maio de 2012

A RUA DO RIO (Palmares), de Ascenso Ferreira





No começo da rua
Morava Agostinho - o aleijado -
A quem o povo acusava de alimentar-se de coisas imundas :
- Bichos mortos apanhados nos fundos dos quintais !

Fronteiro a ele morava o pedreiro Manuel Belo,
Que por ter sido mordido de cachorro da moléstia,
Quando falava com a gente avançava como um cão !

No meio da rua morava a celebérrima preta Inês,
Catimbozeira "afamanada",
Sempre às voltas com sapos e urubus !

Na outra ponta da rua morava a mulata Filomena,
A quem um jacaré acuou dentro de um banheiro no rio,
E que saiu nuinha pela estrada afora,
Gritando : "Me acudam ! Me acudam !"

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Mas nem tudo na Rua do Rio,
Era infâmia, nojo, abominação !

Na outra ponta da rua,
Bem nos fundos do quintal da casa de minha mãe,
Morava o fogueteiro Lulu Higino,
Que no silêncio das noites consteladas,
Arrancava da flauta uns acordes tão suaves,
Que até parecia serem as estrelas lá no céu
Que estavam tocando...


(Transcrito do livro XENHENHÉM, Recife, 1951)



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ASCENSO FERREIRA nasceu em Palmares, PE, no dia
9 de maio de 1895. Projetou-se como um dos maiores
poetas brasileiros de todos os tempos. Publicou seu primeiro
livro de poesia - CATIMBÓ - em 1927, segundo Mário de
Andrade, um dos livros mais originais do Modernismo Brasileiro.
Publicou ainda os livros de poesia CANA CAIANA (1939) e
XENHENHÉM (1951). Sua poesia reunida foi publicada no livro
POEMAS (edição de luxo em 1951 e edição popular em 1953).
O poeta faleceu no Recife, PE, no dia 5 de maio de 1965.

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