terça-feira, 9 de outubro de 2012

Carta de Julio Cortázar após a morte do Che, em 1967





Paris, 29 de outubro de 1967.


Roberto e Adelaida, meus muito queridos :


À noite, voltei a Paris desde Argel.  Só agora, em minha casa, sou capaz de escrever-lhes coerentemente; lá, metido em um mundo onde só contava o trabalho, deixei irem-se os dias como em um pesadelo, comprando jornal após jornal, sem querer convencer-me, olhando essas fotos que todos temos olhado, lendo as mesmas notícias e entrando hora a hora na mais dura das aceitações. 

Então me chegou sua mensagem telefônica, Roberto, e entreguei esse texto que deves receber e que volto a enviar-te aqui para que haja tempo de que o vejas outra vez antes que seja impresso, pois eu sei o que são os mecanismos do telex e o que ocorre com as palavras e as frases.  Quero dizer-te isto : não sei escrever quando algo me dói tanto, não sou, não serei nunca o escritor profissional pronto a produzir o que se espera dele, o que lhe pedem ou o que ele pede a si mesmo desesperadamente. A verdade é que a escrita, hoje e diante disto, me parece a mais banal das artes, uma espécie de refúgio, de dissimulação quase, a substituição do insubstituível. 

O Che está morto e a mim não me resta mais que silêncio, até quem sabe quando; se te enviei este texto foi porque foste tu quem mo pediu, e porque sei quanto querias ao Che e o que ele significava para ti.  Aqui em Paris encontrei uma mensagem de Lisandro Otero pedindo-me cento e cinquenta palavras para Cuba.  Assim, cento e cinquenta palavras, como se alguém pudesse sacar as palavras do bolso como moedas.  Não creio que possa escrevê-las, estou vazio e seco, e cairia na retórica.  E isso não, sobretudo isso não. 

Lisandro me perdoará meu silêncio, ou o entenderá mal, não me importa; em todo caso, tu saberás o que sinto. Olha, lá em Argel, rodeado de imbecis burocratas, em um escritório onde se seguia com a rotina de sempre,  me fechei uma e outra vez no banheiro para chorar; tinha que estar em um banheiro, compreendes, para estar só, para poder desafogar-me sem violar as sacrossantas regras do bom viver em uma organização internacional. E tudo isto que te conto também me envergonha porque falo de mim, a eterna primeira pessoa do singular, e, no entanto, me sinto incapaz de dizer nada sobre ele. Calo-me então.  Recebeste, espero, a mensagem que te enviei antes da tua.  Era minha única maneira de abraçar-te, a ti e a Adelaida, a todos os amigos da Casa.  E para ti também é isto, o único que fui capaz de fazer nestas primeiras horas, isto que nasceu como um poema e que quero que tenhas e que guardes para que estejamos mais juntos. 

CHE

Eu tive um irmão. 
Não nos vimos nunca 
porém não importava.
Eu tive um irmão
que ia pelos montes 
enquanto eu dormia. 
Quis-lhe a meu modo,
tomei-lhe sua voz
livre como a água,
caminhei às vezes 
próximo de sua sombra. 
Não nos vimos nunca 
porém não importava.
Meu irmão acordado
enquanto eu dormia,
meu irmão mostrando-me
por trás da noite
sua estrela eleita. 


Logo nos escreveremos. Abraça forte a Adelaida.  Até sempre, Julio





__________________________________________
Texto enviado pelos amigos internautas pernambucanos
José Ramos Sobrinho (jramossobrinho@gmail.com)
e Hugo Cortez (hugo.cortez@fundaj.gov.br),
por email datado de 8/outubro/2012. 



Nenhum comentário: