quinta-feira, 1 de novembro de 2012

A "CASA DE HERMILO" EM PALMARES, de Juareiz Correya





     Em 1973, diante da primeira edição da antologia POETAS DE PALMARES, que organizei e publiquei (primeiro e único livro lançado pela Editora Palmares, que eu e Elói Pedro da Silva criamos na cidade), Hermilo Borba Filho publicou o primeiro grande elogio que a antologia recebeu na imprensa pernambucana :  a crônica Poetas de Palmares (Diario de Pernambuco, Recife, 6/outubro/1973). Em sua crônica, o escritor palmarense, já consagrado nacionalmente, fez questão de revelar : "E eu, que realizei ou pensei realizar uma enorme catarse, em UM CAVALHEIRO DA SEGUNDA DECADÊNCIA, esgotando Palmares, verifico, ao mesmo tempo, com uma grande alegria e uma grande dor, que Palmares é a minha marca para toda a vida."

     Passada a experiência do projeto da Editora Palmares, que não conseguiu ir adiante com a publicação de uma antologia de poetas e prosadores da Mata Sul pernambucana, onde Hermilo seria incluído com o trecho de um romance (e ele nos incentivou na hora para que esse trabalho pudesse ser realizado), iniciei, em 1975, um novo projeto editorial com a publicação de um livreto de minha autoria - AMERICANTO AMAR AMÉRICA & OUTROS POEMAS.  Dessa vez Hermilo não publicou nada e chegou a afirmar, em uma das suas crônicas sobre livros, que não mais trataria de livros de poesia "por absoluta incompetência técnica."  Não me contive diante disso e escrevi para ele uma carta descontroladamente sincera, de muita emoção mesmo...  Alguém tinha de lhe dizer alguma coisa nesse sentido e eu, que sabia disso, não era de ficar calado. Ele tinha de aguentar a bucha.  Aguentou.  Me escreveu logo dizendo que recebera a carta e adiantou que ia publicá-la na coluna "como um grito de um poeta, e darei minha decisão final." Publicou, no Diario de Pernambuco, a crônica Carta de um poeta, com esta resposta :

     "Sinceramente, poeta, considero-me incompetente para julgar poesia e já se torna cansado o cacoete impressionista de se estar analisando poetas e poesias. Só isto.  Por que não fujo quando escrevem ficção ? Porque aí estou dentro do meu terreno. Mas sua carta me comoveu.  Volto atrás. Se não comentar (a incompetência continua), pelo menos noticiarei os poetas. É o que posso fazer para ajudá-los nesta dolorosa caminhada em que vocês estrebucham pelos caminhos minados do mundo cada vez mais cruel e árido. Acredito na poesia e acredito em vocês que estão querendo romper, com razão, as velhas estruturas.  Destruam-nos pela poesia. E que eu seja o primeiro se faltar com este Amor que lhes devo."

     Hermilo me deixou abestalhado.  Era sincero demais, verdadeiro demais, autêntico demais.  Jamais passou pela minha cabeça que ele chegaria a tanto.  "Volto atrás" - quem é capaz de dizer, ainda hoje, no meio literário pernambucano e nordestino, uma coisa dessas, de negar publicamente a sua opinião para reconhecer algum valor na opinião de outro ? Na verdade, o exemplo de Hermilo me conquistou definitivamente.  Passei a admirá-lo muito mais. 

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