terça-feira, 9 de julho de 2013

HERMILO BORBA FILHO E SEUS ROMANCES






          Com alguns contos publicados esparsamente em jornais e revistas, o ficcionista pernambucano Hermilo Borba Filho só estréia em livro aos 40 anos de idade, com jovial maturidade, iniciando um retrato vivo da sua cidade natal - Palmares -,  que aparece em sua gênese dentro de uma narrativa meio cinematográfica : o romance OS CAMINHOS DA SOLIDÃO, publicado, em 1957, pela José Olympio Editora, do Rio de Janeiro(RJ). Em 1964 a Editora Civilização Brasileira (Rio de Janeiro, RJ) publica o seu segundo romance - SOL DAS ALMAS -, que amplia o retrato da cidade transformada em um painel onde, segundo o próprio Hermilo, em entrevista concedida a Sebastião Uchoa Leite (Jornal do Commercio, Recife, 1964), ele foi "mais além, porque dentro da mesma atmosfera nordestina parti para o campo da moral e do pecado."  Um belo romance, talvez o mais ambicioso do escritor, estruturado com as estações de uma viagem de trem de Palmares ao Recife delimitando cada capítulo. O início da viagem é uma fuga e qual será o real destino da sua chegada ?

          Ao escrever a tetralogia UM CAVALHEIRO DA SEGUNDA DECADÊNCIA - integrada pelos romances "Margem das Lembranças", "A Porteira do Mundo", "O Cavalo da Noite" e "Deus no Pasto" -, publicada entre os anos de 1966 a 1972, pela Editora Civilização Brasileira, o escritor então se afasta desse projeto pictórico do ambiente rural da sua cidade em construção e dos seus interiores humanos.  E mergulha, num processo novo, igualmente comprometido com a sua terra mas inteiramente pessoal, mais dolorido, criando, a partir da sua adolescência, em Palmares, da juventude no Recife, da maturidade em São Paulo e de volta ao Recife e a Palmares, uma obra autobiográfica de primeira grandeza (que a sua modéstia e o seu despojamento denominaram de "segunda decadência"...)  Nessa luxuriosa e corajosa tetralogia de romances, confessaria Hermilo ao jornalista Ricardo Noblat (Revista ELE ELA, São Paulo,SP, 1974) que havia esgotado as suas "andanças sociais, políticas, religiosas, sexuais."  Considerava que a sua catarse estava feita, sua confissão executada, suas penas cumpridas.

          O primeiro romance da tetralogia - "Margem das Lembranças" - foi traduzido na Argentina (Editiones de La Flor, Buenos Aires, 1969) e proibido, por um tempo, como obra pornográfica; julgado nos tribunais "da inquisição" portenha, foi considerado uma obra de arte e consequentemente liberado.  Em 1975 esse romance foi também publicado na França (Editions Stock,Paris).

          AGÁ foi o seu último romance publicado (Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, RJ).  Inventivo, ousado, é um livro diferente de toda a obra romanesca de Hermilo publicada até então,  onde ele explora, com consciente experimentalismo, todas as possibilidades de comunicação da sua prosa.  O escritor explica, em uma entrevista concedida no Recife a José Maria Andrade para a Revista VEJA (e não publicada )  em 1975 :  "Quando lancei mão, em AGÁ, dos quadrinhos, executados por esse excelente pintor que é José Cláudio, o que eu tinha em mente era dar, em texto esquemático, portanto mais direto, e em imagem, portanto mais contundente, a história, no Brasil, da luta pela liberdade e a história paralela da tortura, pelo menos até o século XIX".

          Sobre o seu trabalho como romancista, dizia Hermilo Borba Filho :  "O processo de criação, na cabeça, é lento, mas o processo de escrever é rápido. Escrevo diretamente à máquina e sem rasuras quase. Creio que todo romancista tem, desde que se entende de gente, os romances dentro de si : recordações, experiência de vida, fatos que o atingem, histórias por ouvir dizer, tudo se armazena e, em determinado momento, pode tomar forma."  
                                                                                                         (Texto de Juareiz Correya) 




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