terça-feira, 2 de dezembro de 2008

POESIA DE LUIZ DE MIRANDA



SONETO IMPROVISADO PARA JUAREIZ CORREYA


Dou graças de luz por ti e por Palmares,
e palmilho o sonho de quem vive
entre engenhos de amor e arte.
És onde vejo o canto do bemtevi,
os gorjeios de Ascenso e Hermilo
que levam no vento só aquilo
que no coração é pura paixão,
nós noturnos, imensos e lisos
que a brisa alteia do Recife,
e me torna forte no sul a alma
de um jeito que me alucina,
menina de rios e mar sagrado.
Juareiz, leva contigo o abraço
feito de amigo jogado no espaço.

(Porto Alegre, começo da tarde
de domingo, 9 de novembro de 2008).


POEMA DA NOITE

Nada existe do outro lado do mar,
a não ser o azul que sonhamos,
as parreiras densas de algum vinho,
havido nos barris do sonho
e envelhecido na resina espessa
que em nós ensina a solidão.

Ah, coração, solta teus fantasmas,
o que dorme no silêncio mas vibra
antigas cinzas, vidros, espelhos,
paisagens esquecidas, retratos.

Ah, coração, transporta a acidez,
do verão, os utensílios diários da insônia,
o que me silencia os nervos
e arde neste vento de dezembro,
violino enlouquecido.

Nada existe do outro lado do mar
que não sejam velhas cartas,
poemas interminados,
o silêncio das palavras.

Nada existe do outro lado da vida,
animal exposto a visitação pública.
Passageira como nós, que não vai ao mar,
e morre em ais pelos caminhos.


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LUIZ DE MIRANDA nasceu em Uruguaiana (RS), fronteira com a Argentina. Conquistou o Grande Prêmio da Academia Brasileira de Letras (2001), Prêmio Érico Veríssimo / Câmara de Vereadores de Porto Alegre (1988), Prêmio Valores Culturais de las Américas / New York (1985), Prêmio Negrinho do Pastoreio como melhor poeta do Rio Grande do Sul (2005). Seu poema-livro PORTO ALEGRE, ROTEIRO DA PAIXÃO, publicado pela Prefeitura de Porto Alegre, conquistou prêmios literários em New York (EUA) e no Panamá. Tem 27 livros de poesia publicados.