quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

"História Pátria", de Ascenso Ferreira : uma homenagem ao Ano da França no Brasil

Plantando mandioca, plantando feijão,
colhendo café, borracha, cacau,
comendo pamonha, canjica, mingau,
rezando de tarde nossa ave-maria,
Negramente...
Caboclamente...
Porguesamente...
A gente vivia.


De festas no ano só quatro é que havia :
Entrudo e Natal, Quaresma e Sanjoao !
Mas tudo emendava num só carrilhão !
E a gente vadiava, dançava, comia...
Negramente...
Caboclamente...
Portuguesamente...
Todo santo dia !


O Rei, entretanto, não era da terra !
E gente pra Europa mandou-se estudar...
Gentinha idiota que trouxe a mania
de nos transformar
da noite pro dia...


A gente que tão
Negramente...
Caboclamente...
Portuguesamente...
Vivia !


(E foi um dia a nossa civilização
tão fácil de criar!)


Passou-se a pensar,
passou-se a cantar,
passou-se a dançar,
passou-se a comer,
passou-se a vestir,
passou-se a viver,
passou-se a sentir,
tal como Paris
pensava,
cantava,
comia,
sentia...
A gente que tão
Negramente...
Caboclamente...
Portuguesamente...
Vivia !


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(do livro CANA CAIANA, Recife, 1939 /
reeditado em POEMAS, 1951,1953
e no "Caderno de Cultura PERNAMBUCO"
- Travessia,Programa de Aceleração
de Estudos de Pernambuco, Secretaria
de Educação do Governo de Pernambuco /
Fundação Roberto Marinho).

domingo, 13 de dezembro de 2009

POESIA - PRA VIVER A VIDA ! (Almir Castro Barros)

MUITO ÍNTIMO A UM FILHO


O épico morreu
Mas em toda parte
Há um número de heróis
Que não sei meu filho
Se escrevo a verdade.


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ANOTAÇÕES DE UM CONDENADO


Um século de janeiros
É o que parece
- Nesta máquina de escrever sepulto os dias
Em contos
E em contos acumulo
Um infindável túnel para a travessia.

Faz eras que desabam os miseráveis
Velhos e os pássaros e os meninos
E neles só me encontro pelos sinos.

Este é o remorso dos que amam os mortos.
Ergue-los em contos sobre escombros
E transformar em fábula a lástima vizinha.


(Revista POESIA - PRA VIVER A VIDA ,
Número 1, Nordestal Editora, Recife, abril,1980)

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ALMIR CASTRO BARROS nasceu em Maraial (PE).
Tem publicado os seus poemas com regularidade
em jornais recifenses. Publicou ESTAÇÕES DA
VIAGEM (poesia), em 1974. Prepara atualmente
um livro reunindo todos os seus poemas -
GÓLGOTA - OUTRA CRUZ PARA O POEMA. Os poemas
inseridos nesta revista são do livro OS CÃES
DA SINA (Edições Pirata, Recife, 1979).