segunda-feira, 21 de novembro de 2016

"VIAGENS GERAIS", DE CELINA DE HOLANDA : APRESENTAÇÃO DE JOSÉ MÁRIO RODRIGUES (2)






VIAGENS GERAIS, 
DE CELINA DE HOLANDA  
(CEPE Editora, Recife, PE, 2016) 



     "O ESPELHO E A ROSA foi o seu livro de estreia, lançado por Ariano Suassuna e Maximiano Campos e publicado pela Imprensa Universitária.  

     Vieram depois os outros livros :  A MÃO EXTREMA, Edições Quirón, São Paulo, em 1976; SOBRE ESTA CIDADE DE RIOS, 1979, Edições Pirata; RODA D'ÁGUA, 1984, Edições Pirata; AS VIAGENS, 1984, Edições Pirata e VIAGENS GERAIS, Fundarpe, 1995.   

        Quando conheci a poesia de Juan Ramon Jiménez, poeta espanhol da geração de Garcia Lorca, que também como Celina possui um acentuado lado espiritual e ético, vi que a diferença entre essas duas vozes é que Jiménez teve toda sua vida dedicada à Literatura e Celina só se descobriu na maturidade.  Se observarmos bem, veremos que há famílias de poetas que se parecem muito.  São os preocupados com os sentimentos mais profundos do ser; os que não trilham pelas veredas da pura experiência de linguagem, dos jogos de palavras  que buscam o hermetismo, camuflando a incapacidade para assimilar as dores humanas e as necessidades básicas do viver.  Vejamos : 


"Ouço o povo numeroso de Deus.  
Vem dos mangues, cárceres 
e morros. 
O Recife pulsa 
pulso forte de aço, onde vivo. 
A noite fecho a porta à beira-rio
lama e carne indissolúveis.  
Ouço as portas. 
E o clamor do povo de Deus, abrindo-as." 


         Logo após o lançamento de O ESPELHO E A ROSA, que obteve o prêmio da Secretaria de Educação de Pernambuco, o poeta Mauro Mota escreveu em sua famosa coluna "Agenda", no Diario de Pernambuco, que "o livro de Celina de Holanda é uma contribuição válida à poesia brasileira de hoje e de amanhã.  Somente circunstancialmente uma estreia... De agora em diante, seria difícil falar-se em poesia atual, omitindo o nome de Celina de Holanda."  

     Alberto Cunha Melo viu uma variedade de temas e o cruzamento entre eles.  Há uma homogeneidade formal em Celina, uma voz lírica definitivamente talhada.  "Seus poemas de versos curtos e extrema condensação expressiva, formam em conjunto um monólogo multicor, onde os poemas demarcam o discurso, página a página sem baixar a qualidade e  diapasão."  

          Sem ser panfletária ou querer fazer uma poesia meramente política, Celina, diz Maria de Lourdes Hortas, "rejeita a violência e revela-nos a realidade do seu povo à maneira límpida e corajosa de Lorca e Neruda" ... Versos límpidos, despojados, secos, sóbrios. "Cada palavra é um módulo consciente que transporta o grito do poeta contra a estagnada paisagem social em que se debruça." 


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Fragmento da apresentação de José Mário Rodrigues, 
especialmente para a edição do livro VIAGENS GERAIS, 
de Celina de Holanda  
(Companhia Editora de Pernambuco - CEPE / 
Secretaria da Casa Civil / 
Governo do Estado de Pernambuco, Recife, 2016)