sexta-feira, 8 de junho de 2012

POETAS DE PALMARES, de Hermilo Borba Filho




   
     Fui pegado de supetão. Juarez Correia me escrevera reclamando porque eu não acusara o recebimento do livro que ele e Elói Pedro da Silva realizaram.  Eu não havia recebido o livro. Recebo-o agora :  POETAS DE PALMARES, e fico estatelado. No primeiro instante parece-me que sou fulminado por um raio : revejo-me todo ali, no prefácio de Juarez. E eu, que realizei ou pensei realizar uma enorme catarse em "Um Cavalheiro da Segunda Decadência", esgotando Palmares, verifico, ao mesmo tempo com uma grande alegria e com uma grande dor, que Palmares é a minha marca para toda a vida.

     Começo da estação, de onde avisto o Una, desço a ladeira, vejo o hotel de Boca-de-Rã, continuo andando, passo pela casa que foi do Capitão Hermilo e a que foi do meu tio Estevam, e vou em busca de outras casas, as que são habitadas por fantasmas e as que ainda hospedam parentes - irmãos, cunhadas, sobrinhos, primos - mas tão mudados e tão distantes de mim.  Vejo a cidade metida a besta com os seus clubes de serviço, sua Faculdade, sua sociedade, seus cinemas e vejo que a perdi.  Perdi-a e por isto tento reconstruí-la nos meus escritos.  A cidade dos tipos populares e dos mendigos, dos políticos e dos senhores de engenho, dos pescadores da Rua da Lama, das prostitutas do Alto do Lenhador, dos jogadores do café de Nenê Milhaço, das sessões do Cine-Apolo, dos bailes do Clube Literário e do Recreio Familiar, das jovens namoradas e das amantes furtivas, do interminável folclore literário : buchadas domésticas, ensopados de pitus do Una, piabas torradas com cerveja, cozidos de camorim de água-doce, o doce chouriço, as pamonhas na folha da bananeira, e mais tanta comida, tanta, tanta.

     E acima de tudo, a possibilidade do sonho : a possibilidade de estar sonhando com o futuro, que dependia do livro que eu estava lendo, o futuro que chegou e foi, e Palmares é uma grande cicatriz, sempre dolorida, procuro desamá-la e não consigo, dela fujo fisicamente mas a ela estou ligado no mais profundo de mim mesmo, há anos que lá não vou e visito-a todos os dias, pensei que com minha tetralogia me houvesse livrado dela, engano, entrego a Editora Globo UM GENERAL ESTÁ PINTANDO e tudo no livro é Palmares com a sua gente recriada, eu mesmo recriado, estou confundindo os mortos com os vivos, não importa, tudo é vivo enquanto eu viver, e até mesmo depois que eu não mais viver, nos meus livros prolongo o tempo do esquecimento.

     Juarez Correia, com a sua carta e o seu livro (que eu fingia desconhecer, não tomar conhecimento, não me interessar, que me importa lá Palmares ?), causando-me alegria e dor, me fez definitivamente aceitar Palmares, e releio, na sua coletânea : Fernando Griz, irmão do meu cunhado Alfredo, que conheci com o seu "formidável nariz e cegonhesco gogó"; Eurípedes Afonso Ferreira, Pinho para os íntimos, meu primeiro professor primário; Raimundo Alves de Souza, meu querido Raimundo, uma das maiores figuras da minha vida, que fez teatro comigo, que se dignava dar-me importância do alto de sua lenda; Artur Griz, meu velho amigo e contraparente; João Costa, companheiro de danças e reuniões; Jayme Griz, também da família, meu amigo, meu contraparente; Ascenso, do mesmo clã, do mesmo mundo de Palmares; e Fenelon Barreto, que escrevia uns "dramas" terríveis : segundo meu irmão Clóvis, nas peças de Fenelon só não morria o ponto porque saía correndo por debaixo.  

     Por falar em Clóvis - Clóvis Borba Carvalho - lamento que a coletânea não tenha trazido nada dele, que colaborou tanto tempo n'A NOTICIA ; e que tenham escapado também Stella, a viúva de Ascenso, e Luiz Bezerra, de quem eu passei anos de juventude recitando um longo poema, cujo refrão, "Oxente, não há terra tão boa como a terra da gente", era dito de peito inchado.  Em compensação, porém, não foram esquecidos no livro os poetas que não escrevem versos mas que são poesia viva : os novos Goguéias, Boles-sem-Tempo, Mucuranas, Zumbas-sem-Dente, Veados-Podres, Fanhins.  Esses, saibam todos, quando Pirangi, o vigia que já se encantou, volta e badala o sino do mercado para nos lembrar as fugazes horas da vida, reunem-se na praça e conversam longamente, até o dia nascer, sobre as aventuras e desventuras de todos aqueles que tiveram a sorte de pertencer a Palmares.  


                                                                                                Diário de Pernambuco
                                                                                                    ( 06.09.1973) 




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Transcrito do livro PALMARES E O CORAÇÃO, 
de Hermilo Borba Filho 
- Fundação Casa da Cultura Hermilo Borba Filho/
Prefeitura dos Palmares, PE, 1997. 



quarta-feira, 6 de junho de 2012

FIP - Festival Internacional de Poesia do Recife




     Coordenado pelo Departamento de Literatura da FUNDARPE, sob a responsabilidade do professor e poeta Wellington de Melo, o Recife vive, a partir desta quarta-feira, dia  6, até o próximo domingo, dia 10, o seu Festival Internacional de Poesia, acontecimento inédito para a valorização da palavra poética criada em Pernambuco, no Nordeste e em alguns estados brasileiros, e também criada em alguns países convidados, com a presença viva de autores contemporâneos representativos desses países. Realizado pela FUNDARPE/Secretaria de Cultura/Governo de Pernambuco, o Festival é patrocinado pela Livraria Jaqueira, do Recife, e conta com o apoio cultural do Consulado de La Republica Argentina - Recife - Brasil.

     A programação do FIP terá atividades na Torre Malakoff, Espaço Pasárgada e Mercados da Boa Vista e da Madalena.  Estes são os autores que participam das variadas atividades promovidas nesses espaços :

     Adélia Coelho, Allan Sales, Aurélia Cassaque, Biaggio Peccorelli, Bruno Piffardini, Carlos Nejar, César Leal, Chico Pedrosa, Delmo Montenegro, Diogo Guedes, Ernesto de Melo e Castro, Guillermo Velázquez, João Menelau, Luna Vitrolira, Luiz Serguilha, Márcio de Oliveira, Marcus Accioly, Maria Alice Amorim, Mauro Lo Coco, Miró, O Baile dos Seres Imaginários, Oliveira de Panelas & Leonel, Paulo Bruscky, Pedro Américo de Farias, Raísa Feitosa e Lula do Pandeiro, Ricardo Domeneck, Ron Withehead, Saulo Neiva, Samarone Lma, Silvério Pessoa, Vozes Femininas.  

     Mais informações : acesse o site FIP - Festival Internacional de Poesia do Recife  (http://festivalinternacionaldepoesia.com)

terça-feira, 5 de junho de 2012

BANDEIRIANA, de Gilson Oliveira




Como a casa do meu avô
o nosso amor tinha o gosto
das coisas eternas.
Também se situava
numa espécie de rua da União.
Hoje ela se localiza
numa rua paralela
(como são belos e tristes 
os nomes das ruas do Recife!) :
a rua da Saudade...



(Da antologia POESIA VIVA DO RECIFE,
organizada por Juareiz Correya)


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GILSON OLIVEIRA - Recifense. Jornalista
e compositor popular. Reportagens publicadas 
no Jornal do Commercio, Diario de Pernambuco
e suplementos do Diário Oficial de Pernambuco.
Integra a equipe do novo Suplemento
Pernambuco, publicado pela CEPE/Governo de 
Pernambuco.

Agenda Cultural / Prefeitura do Recife
- Junho 2012 :  "Literatura"
http://www.recife.pe.gov.br/agendacultural