sábado, 24 de abril de 2010

Lúcidas confissões de Lucila Nogueira no Twitter

Criaram uma mitologia em torno de mim a partir dos anos 90


Nunca me incomodei porque estava sempre trabalhando muito ocupada e com responsabilidades imensas


Fui nessa brincadeira pai e mãe das minhas filhas pois meu marido fazia o tipo delicado e frágil como muitos artistas


Trabalho desde os dezessete anos nos estágios de professora junto com o curso do pré-vestibular


Entrei com dezessete na Faculdade de Direito do Recife e me formei com 22


Com 21 e 22 anos fiz estágio do Ministério Público, da Fazenda e da Assitência Judiciária


Nesse tempo já tinha um emprego público no Tribunal de Contas do Estado, desde o início de 1971


Deixei de ser auditora do Tribunal de Contas para ser promotora de Justiça em 1978


A essa altura já tinha cursado os mestrados de Direito e de Antropologia só não defendi as dissertações


Voltei a estudar em 1986 e dessa vez o mestrado em Letras que terminei com oito meses e meio de gravidez


A dissertação sobre Drummond está na terceira edição e para quem quiser saber eu a escrevi em quinze dias porque estava perto do parto


E com três anos lia para as perplexas alunas da minha mãe no Instituto de Educação os livros do curso de pedagogia


Quem passou no Colégio de São José de 1955 a 1967 sabe muito bem quem era eu


Meu gosto pela literatura veio da solidão das tardes na casa da Rua do Lima


Depois de ler os livros femininos e infanto-juvenis de tia Lucila professora e diretora de duas escolas


Passei a ler os clássicos de tio Arthur pai de Aninha minha prima


A casa da minha avó na Rua do Lima era perto do Canal 2 e eu ia assistir Você faz o Show


Meu primo Roberto pai de Bruno ficava cantando da sala ao corredor até vencer o concurso da tv e ir para o sul


Sempre tive o meu pé no chão embora tenha permanecido artista


Tomei conta do meu marido por trinta anos e dei paz ao seu temperamento dionisíaco


Entrei no magistério acadêmico em 1989 e depois fiz um doutorado dando aulas em várias turmas de graduação


Minha tese sobre Cabral está publicada por retribuição profissional ao meu esforço em organizar importante livro sobre as literaturas africanas


Nunca tive nada fácil nem de graça sempre com muita luta e garra


Mas a partir dos anos 90 começaram a querer diminuir o mérito do trabalho de uma vida


O Governo do Estado de Pernambuco me deve 20 anos de licença prêmio que desconsideraram na aposentadoria


Fui uma promotora de Justiça que nunca precisou levar processo para casa porque sou muito clara e objetiva


Sou advogada por vocação quando surge alguém com um problema já vou logo vendo os vários modos de resolver


Então é maldade essa lenda de que não gosto do Direito porque amo a poesia


Hoje tenho um câncer e luto contra ele tratando de não deixar nenhum livro inédito


Dei conta da vida como filha que não abandonou a sua mãe sozinha ou em asilos


Que chorou a morte do pai um pouco ausente e nunca lhe diminuiu a memória


Que se desesperou na morte do companheiro e mantém o respeito à sua belíssima figura


Que sustentou sendo pobre três anos e meio sua filha do meio na Suécia até ela entrar na universidade e não precisar mais


Que está sempre ajudando sua competente filha mais velha advogada que ainda não foi assimilada inteiramente pelo mercado de trabalho


Que soube embora dilacerada por limites fundamentais na filha mais nova


E aí hoje ela ouviu pela segunda vez o professor da Faculdade particular se referir a mim como MALUCA BELEZA


Depois de lhe ter dedicado civilizadamente um volume da minha tese sobre João Cabral


E aí minha filha mais nova respondeu : minha mãe trabalha desde os dezessete anos e o senhor ao que parece já se formou velho


Uma poeta operária com câncer deve ser respeitada e bem mais que o vulcão Eyjafjallajoekull


Uma poeta / professora / promotora / operária com câncer e sem o seio direito é uma mutação climática que modifica neste seu dia o eixo da terra


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(http://twitter.com/lucnog)

quarta-feira, 21 de abril de 2010

A Revista ENCONTRO (apresentação de Maria de Lourdes Hortas)



ENCONTRO chega ao vigésimo sexto ano de publicação, porta-voz do Gabinete Português de Leitura, efetivando um dos propósitos desta Casa, ou seja, estreitar os laços culturais luso-brasileiros.
Nos números mais recentes, vimos alargando os horizontes, trazendo a produção literária dos países que constituem o mundo lusófono, ou seja, aqueles que integram a Comunidade de Países de Língua Portuguesa : Angola, Brasil, Cabo-Verde, Guiné, Moçambique, Portugal e São Tomé.
Neste número, logo na abertura, trazemos uma surpresa : José Carlos Venâncio, escritor português nascido em Angola, e hoje radicado em Portugal, tira da gaveta uma entrevista com o escritor macaense Henrique de Senna Fernandes e dá-nos a conhecer alguém que, embora não viva em nenhum país da CPLP, pois mora em Macau, capital de Goa, ex-colonia de Portugal, se expressa em língua portuguesa, ao exercer o seu ofício de escritor.
Em nosso Painel, damos destaque à CPLP, ao acordo ortográfico e à língua portuguesa. E, na seção de ensaios e de crônicas, há textos sobre escritores brasileiros, portugueses e africanos, mescla que cumpre os nossos objetivos. Quanto aos textos de poesia e ficção vêm assinados por brasileiros e portugueses.
Para encerrar esta nota, quero referir a homenagem prestada por ENCONTRO à poetisa pernambucana Maria do Carmo Barreto Campello de Melo, falecida em 2008. Maria do Carmo foi grande amiga desta Casa, de Portugal e das coisas portuguesas e deixou entre nós muita saudade.
Não deixem de ver, na Estante, os livros recebidos pela redação de ENCONTRO. Aí estão registrados e comentados.
Para encerrar, chamo a atenção dos leitores para o primeiro artigo do Painel : nele vem um pouco da história desta Casa e dos desafios que enfrenta para se manter viva e atuante no cenário cultural do Recife.
Boa leitura.
Saudações luso-pernambucanas de Maria de Lourdes Hortas.



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Apresentação de ENCONTRO - Revista
do Gabinete Português de Leitura de Pernambuco
(Recife, Ano 26, Número 21, 2010)

segunda-feira, 19 de abril de 2010

OS DESAFIOS DO GABINETE PORTUGUÊS DE LEITURA DO RECIFE, de Humberto França

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Estou convencido que a vocação principal do Gabinete Português de Leitura do Recife será sempre a da educação para o estudo da Língua Portuguesa. No entanto, sei que esta Casa se prepara para incorporar jovens luso-brasileiros e brasileiros a fim de, com sangue novo, impulsionar os projetos que ora despontam.

O GPL possui excelentes instalações, equipamentos, localização privilegiada e pessoal. E está pronto para abrir suas portas a novos empreendimentos no mundo da Lusofonia, e discutir, estudar, divulgar a Língua Portuguesa em suas vertentes brasileira e africana, procurando se unir e colaborar com os objetivos determinados pelos governos dos países que integram a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa - CPLP. Finalmente, imagino que o Gabinete Português de Leitura do Recife poderá tornar-se um apoio para uma tradicional e respeitável instituição de Portugal, dedicada ao ensino e a expansão da Língua Portuguesa no Mundo.

Concluo, assinalando que, o projeto do Quinto Império, na atualidade, encontra sua verdadeira realização na Lusofonia e, portanto, sendo lusófono, o Gabinete Português do Recife está preparado para refundar os seus propósitos e sua vocação, e produzir ações para a perpetuação do ensino, da promoção e da propagação da sempiterna última flor do Lácio, pois a nossa PÁTRIA, como escreveu Fernando Pessoa, é a LÍNGUA PORTUGUESA. Nela existimos e nos movemos, nela ouvimos as primeiras palavras pronunciadas pelos lábios de nossas mães. Neste idioma melodioso, escutaremos os derradeiros sons de nossas vidas e em Português haveremos de dizer o nosso definitivo "sim" à almejada eternidade.


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Trecho do artigo "Os desafios do Gabinete
Português de Leitura do Recife, de Humberto França
(Revista ENCONTRO, número 21, ano 26, Recife, 2010)