quarta-feira, 23 de abril de 2008

"EU JOGUEI ISABELA PELA JANELA", poema de Sandra Silveira

Eu joguei Isabela pela janela
cada vez que ouvi discussões de um casal
e fiz de conta que não ouvia nada !!!

Eu joguei Isabela pela janela
cada vez que percebi que as discussões
pareciam agressões e não fiz nada para parar isto !!!

Eu joguei Isabela pela janela
quando ouvi uma criança apanhar e nada fiz !!!

Eu joguei Isabela pela janela
quando vi uma criança ser humilhada publicamente
menosprezada e desvalorizada
e dei aos pais o direito de diminuí-la
simplesmente para eu não me incomodar !!!

Eu joguei Isabela pela janela
quando vi uma criança pedir socorro
e simplesmente nenhuma ajuda lhe ofereci !!!

Eu joguei Isabela pela janela
e jogo todos os dias
seja em sinaleiros ou shoppings
filhas das mais diversas classes sociais !!!

Eu a vi ser explorada no trabalho e nada fiz
eu a vi ter que pedir esmola e nada disse
eu a vi ser agredida em um shopping
e fiz de conta que não vi !!!

Isabela... eu a joguei pela janela
estou criticando a quem por minha omissão ?!?!?!
só agora percebi o que podia
e devia ter feito e não fiz

Isabelasssssss
perdão !!!


(transcrito do blog netlog.com/catsandraloba )


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SANDRA SILVEIRA nasceu em Curitiba (PR).
É advogada. Mantém, no NETLOG, o blog
CATSANDRALOGA (netlog.com/catsandraloba)
onde publica textos de sua autoria.
O poema "Joguei Isabela pela janela"
foi postado em 18/abril/2008.

domingo, 20 de abril de 2008

"Indústria criminosa" de Livros, CDs e DVDs

Compra-se a cópia de um filme, hoje, em DVD, mais barata do que um livro. (Por isso os cinemas fecham). Um disco, um CD simples ou MP3 com vários CDs, muito mais barato ainda. (Em breve, as lojas de discos fecharão também...)

E nessa história de copiar, de piratear, de falsificar produtos da indústria cultural, o livro, como sempre, "o pobre livro", ainda sai perdendo. Ainda é artigo de luxo. Três reais já pagam a cópia-pirata de um CD de sucesso recém-lançado. E todo mundo quer ouvir. E a cópia-pirata de um DVD não custa mais do que cinco reais : todo mundo quer ver. A cópia de um livro, com 100 páginas, no mínimo, não sai por menos de 7 reais. E poucos querem ler. Mas assim mesmo as cópias dos livros servem muito bem nas escolas e nas universidades da vida que têm, bem desenvolvidos, os seus centros de reprografia e as quase espetaculares cópias geradas por fotocopiadoras cada vez mais sofisticadas.

A "indústria" pirata das fotocópias, que nasceu muito antes do que a indústria pirata dos CDs e DVDs, muito bem instalada com os seus tentáculos em escolas públicas e privadas, inclusive em centros universitários, é igualmente caso de polícia e de justiça. Ou não é pirataria e crime a cópia de um livro sem autorização da editora e ou dos autores ?

O que se sabe é que as poderosas indústrias dos DVDs - ligadas diretamente às produtoras multinacionais de cinema - e dos CDs - que, igualmente, representam as multinacionais gravadoras musicais -, têm investido seriamente contra a pirataria internacional que impõe astronômicos prejuízos aos seus setores. A conta é em bilhões de dólares. Polícias estaduais e federal, no Brasil e em vários países, têm se comprometido com esse combate. A organização criminosa é muito bem montada e articulada e o crime continua à luz do dia em qualquer cidade brasileira e do planeta.

Mas ninguém diz nada - os autores, os editores, as autoridades - e a própria Imprensa silencia, sobre a pirataria de livros. O pobre, inimaginável, inútil e sub-produto cultural LIVRO nem parece que é objeto de pirataria, todos os dias, em qualquer escola ou centro universitário brasileiro. Esse é um grande e vergonhoso crime. É por isso que editar livro no Brasil é uma aventura suicida : melhor abrir um bar (ou uma fotocopiadora) do que uma livraria. Ninguém abre mais livraria no território brasileiro (muitas já fecharam, sem choro nem vela, e as que ainda resistem não estão livres dessa tragédia). O resultado desse desestímulo à produção e à circulação da produção editorial brasileira todos já conhecem : uma estatística imoral de milhões de analfabetos e um vergonhoso papel cultural na América Latina. Todos sabem que o Brasil inteiro tem menos livrarias do que a cidade de Buenos Aires, capital da Argentina. (JUAREIZ CORREYA).

REPORTAGEM NÃO É JORNALISMO LITERÁRIO, de Juareiz Correya

"Jornalismo Literário"é um selo editorial da Companhia das Letras, editora paulista. No posfácio do livro HIROSHIMA, que reproduz, integralmente, a reportagem de John Hersey,
sobre seis sobreviventes da explosão da bomba atômica, publicada, nos Estados Unidos, em agosto de 1946, pela revista The New Yorker (Companhia das Letras, São Paulo, 2002), o jornalista Matinas Suzuki Jr. afirma que "na tradição americana, esse tipo de narrativa tem várias denominações : jornalismo literário, literatura de não-ficção, ensaio, jornalismo de autor, novo jornalismo." E que, segundo os críticos especializados, não seria jornalismo e, se fosse literatura, seria uma literatura de segunda classe.

Nem tanto ao norte nem tanto ao sul. A discussão vai além das redações e é assunto acadêmico de repercussão internacional. Na verdade, a palavra ou denominação correta para esse tipo de produção intelectual, jornalística, não está sendo dita : trata-se, pura e simplesmente, de "reportagem" (trabalho de repórter ou de uma equipe de repórteres), nada mais. No caso do trabalho de John Hersey, a clássica "reportagem histórica".

E este exemplo irretocável é bastante esclarecedor :

O grande repórter Samuel Wainer, uma legenda do jornalismo brasileiro, advertido pelo chefe da seção brasileira da BBC, quando cobria as sessões do Tribunal de Nuremberg, de que o seu papel não era fazer literatura e sim jornalismo, confessa, em seu livro - "MINHA RAZÃO DE VIVER, Memórias de um repórter", Editora Record, Rio, 1988 - : "Permaneci cerca de quatro meses em Nuremberg. Mas aprendi a lição. Desisti definitivamente da literatura. Ou, para ser mais preciso, da subliteratura. Eu havia aprendido uma lição. "

"Jornalismo Literário" , para bom entendedor, é outra coisa, e, no Brasil, valeria para uma bela e inesgotável discussão sobre a sua real existência, desde o tempo de circulação dos suplementos literários (isto é jornalismo literário!) e das revistas literárias (isto é jornalismo literário!!!) até a última década do século passado e os dias de hoje, tempo em que não se publica mais, ou se publica raramente, em jornais e revistas , literatura propriamente dita, que é a literatura artística. Pretender que jornalista seja autor de literatura, ou melhor, escritor, pelo simples fato de escrever um texto, como se estivesse produzindo literatura (e as "literaturas" são muitas, além da artística), é o mesmo que classificar de literatura as receitas culinárias, as bulas de remédio, os horóscopos, as previsões do tempo...

Os repórteres sempre existiram e existem, realizando pequenas, médias e grandes reportagens. E eles têm consciência do trabalho jornalístico que realizam e da atividade profissional que desempenham, a exemplo, hoje em dia, de um Geneton Moraes Neto e de um Caco Barcellos, competentes repórteres que, além dos chavões jornalísticos e dos modismos editoriais, escrevem e editam, lucidamente, a sempre boa, velha e atual "reportagem".