sábado, 5 de dezembro de 2009

POEMAS DE FERNANDA JARDIM

CIDADE



Cenas da realidade
linda diva dos meus sonhos perdidos.

Imenso apreço
pelas tuas ancas largas.

Doce quimera,
musa dos pensares meus.

Dama da noite
feliz, solitária é a tua imagem.

Nunca te vejo pela metade,
sempre por inteiro,
como te admiro !

Anjo negro :
destino da minha vida.

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OLHOS DE TIGRE


Após longo outono
encontrei-me afinal...

Cabelos ao vento,
contando os tormentos,
histórias de vidas passadas.

Estrada visceral
que nos conduz
a um destino de luz.

Vida, corpo, cruz.
Sinto-me fada,
sinto-me brasa,
sou filha de Oxum.

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JARDIM


Cheiro de chuva
na minha manhã girassol.

Orvalho
nas plantas resplandecentes.

Arco-íris
anunciando o belo dia.

A vida caminha lá fora :
forte, viva e voraz.

Sonhos em minha mente audaz,
flores colhidas,
eterna primavera.

Sol, prisma, primordial.

Fantasia
no meu coração reluz.

Um blues jardim.


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FERNANDA JARDIM nasceu no Recife em agosto
de 1975. Formou-se na UFPE. Leciona inglês,
francês, espanhol e alemão. Atua em eventos
há 14 anos. Escreve poesia desde 1996 e,
além de Pernambuco, já divulgou os seus
trabalhos na Alemanha, Marrocos e Portugal.
Publicou estes livros de poesia : ANJOS-POETAS
(2005), DEFLORANDO OS HORIZONTES (Arte-livro
Editora, Recife, 2005), REFLEXO DE UM ESPELHO
(Editora Livro Rápido, Olinda, 2008). Os poemas
publicados neste blog fazem parte do livro
DIVINO AMOR (Editora Livro Rápido, Olinda, 2009),
que será lançado neste sábado, dia 5/dezembro/
2009, às 16 horas, na Casa da Cultura do Recife
(Raio Central).

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

A FRATERNIDADE POÉTICA DE DOM HELDER CAMARA E CARLOS PENA FILHO (2)

"nem estas crianças feitas
de farinha e jerimum
e a grande seca que mora
no abismo de cada um"
(CARLOS PENA FILHO,
em "Memórias do Boi Serapião")



CRIANÇAS FEITAS DE FARINHA E JERIMUM
HOMENS DE AÇO,
COZIDO
NO SOL NORDESTINO.
INTELIGÊNCIA VIVA
BEBIDA NA LUZ INTENSA
QUE CAI DO CÉU.
DECISÃO
DE QUEM TEM DE ARRANCAR DA TERRA
CADA GOTA D'ÁGUA.
TEIMOSIA
DE QUEM ESPERA
CONTRA TODA A ESPERANÇA...

Dom Helder Camara
(Recife, 5,6/12/1970)

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"é que não se espera a morte
pois se está sempre a morrer"
(CARLOS PENA FILHO,
em "Memórias do Boi Serapião")


SEMPRE A MORRER E SEMPRE A NASCER...
CADA DIA QUE PASSA,
CADA SOL QUE SE PÕE,
CADA DESPEDIDA
SÃO SINAIS DE TERRA PRÓXIMA
E DE DESEMBARQUE À VISTA...

Dom Helder Camara
(Recife,5,6/12/1970)

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"sem antes e sem depois.

um cemitério sem corpos
ou um leito de mar, sem mar."
(CARLOS PENA FILHO,
em "Fazenda Nova")



BATIDA PELA VIDA
TU TE FECHAS AO AMOR
QUANDO TENS
RESERVAS IMENSAS DE CARINHO.
A IMPRESSÃO QUE DÁS
É A DE UM LEITO DE RIO
SEM RIO,
A DE UM LEITO DE MAR
SEM MAR...
ROMPAM-SE AS BARREIRAS
HAVERÁ CHEIA NO RIO
E O MAR TRANSBORDARÁ...

Dom Helder Camara
(Recife, 5,6/12/1970)


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"entrar no acaso e amar o transitório"
(CARLOS PENA FILHO,
em "A solidão e sua porta")


FILHO DO ABSOLUTO, AMO O RELATIVO
VOCAÇÃO DE ETERNIDADE,
QUE SERIA DE MIM
SE NÃO MARCHASSE PARA O ETERNO
ATRAVÉS DO EFÊMERO !?...
E HÁ EFÊMERO
DESLIGADO DA ETERNIDADE ?
E HÁ RELATIVO
SEM RAÍZES NO ABSOLUTO !?...

Dom Helder Camara
(Recife, 5,6/12/1970)



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CARLOS (SOUTO) PENA FILHO
- Nasceu no Recife,PE, em 17 de maio de 1929.
Advogado e poeta, publicou seu primeiro livro
em 1952 (O TEMPO DA BUSCA). Em 1955 publica
MEMÓRIAS DO BOI SERAPIÃO, com ilustrações de
Aloísio Magalhães. A VERTIGEM LÚCIDA, seu
próximo livro de poemas, vem à luz em 1958.
No ano seguinte, tem toda a sua obra reunida
no LIVRO GERAL. Em 1983, seu biógrafo Edilberto
Coutinho publicou a antologia OS MELHORES
POEMAS DE CARLOS PENA FILHO. O poeta foi também
letrista, sendo o seu maior sucesso na música
popular a canção "A mesma rosa amarela", em
parceria com o conhecido compositor pernambucano
Capiba. Morreu precocemente aos 31 anos de idade,
em 1o. de julho de 1960, vítima de acidente
automobilístico. Carlos Pena Filho é considerado
um dos maiores poetas pernambucanos, pela intensa
visualidade e musicalidade dos seus versos.



DOM HELDER(PESSOA)CAMARA
- Nasceu em Fortaleza, CE, em 7 de fevereiro de 1909.
Bispo católico, teólogo e Arcebispo Emérito de Olinda
e Recife, tornou-se um corajoso e incansável defensor
dos direitos humanos durante a ditadura militar que se
seguiu ao golpe de 1964. Foi um dos idealizadores de
uma igreja participativa socialmente, a favor dos pobres
e contra a violência, tendo suas idéias divulgadas
amplamente entre o clero da América Latina e da África
do Sul. Com grande capacidade de articulação, teve
forte participação no Concílio Ecumênico Vaticano II
e foi também um dos fundadores da Conferência Nacional
dos Bispos do Brasil - CNBB, tendo recebido, por sua
atividade eclesiástica, diversos prêmios nacionais e
internacionais. Foi, ainda, o único brasileiro a ser
indicado quatro vezes para receber o Prêmio Nobel da
Paz. Morreu em 27 de agosto de 1999, no Recife.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

A FRATERNIDADE POÉTICA DE DOM HELDER CAMARA E CARLOS PENA FILHO

"Eles nunca se encontraram em vida. Se encontraram nos poemas de Pena, como o chamavam os seus amigos mais queridos. Se encontraram na paixão pelo Recife, por Olinda e por aqueles que nas suas ruas trafegam ou vivem, sofrem ou se divertem. Se encontraram no azul, que era a cor predileta do poeta e com a qual ele coloriu muitos de seus versos e sonetos. No azul do manto de Maria, uma das devoções de Dom Helder", afirma Bruno Ribeiro, diretor executivo do IDHeC - Instituto Dom Helder Camara, na apresentação do livro ENTRELINHAS, de Dom Helder Camara e Carlos Pena Filho, livro de quatro mãos, quarenta, quatrocentas, quarenta mil mãos fraternas...
Aos versos de Carlos Pena Filho, publicados no Recife em 1959, uniram-se os versos de Dom Helder Camara, escritos no Recife em 1970; o sagrado carinho de Christina Ribeiro, colaboradora e amiga do Arcebispo de Olinda e Recife, que preservou o exemplar-matriz do LIVRO GERAL, de Carlos Pena Filho; a generosidade de Tânia Carneiro Leão, que cedeu ao IDHeC os direitos de edição dos poemas selecionados do "poeta do azul"; a palavra crítica de Leonardo Boff ("Todos os escritos de Dom Helder vêm perpassados de aura poética. Aqui reunem-se pequenos poemas que se entendem como contrapartida das poesias de outro grande poeta, o pernambucano, precocemente falecido, Carlos Pena Filho"); o poema em prosa de Marcus Accioly ("O Recife sofre uma espécie de nostalgia de Carlos Pena Filho. Ele foi o seu grande poeta e maior seria se - à Shelley - "tivesse tempo". Morreu com 31 anos e legou o seu azul à cidade. Amei tardio a sua obra e - como quem ama a poesia ama o poeta e vice-versa - passei a procurar o seu fantasma que devia andar pelo Recife e não seria impossível encontrá-lo"); a visão/versão dos artístas plásticos Francisco Brennand, José Cláudio, Abelardo da Hora, Romero de Andrade Lima, Luciano Pinheiro, Guita Charifker, Margot Monteiro, Tereza Costa Rego, George Barbosa, Tânia Carneiro Leão, Gil Vicente, Gilvan Samico, que ilustram os poemas; o refinado projeto gráfico de Ricardo Melo; os irretocáveis retratos dos artistas plásticos desenhados por Zenival; o contagiante entusiasmo de Leda Alves, empenhando a CEPE em todo o projeto editorial; a admirável produção gráfica, crédito da competência profissional dos funcionários da Editora.
ENTRELINHAS, um livro repleto de fraternidade poética e solidariedade pernambucana, coeditado pelo IDHeC e CEPE/Secretaria da Casa Civil /Governo de Pernambuco, em parceria com a FUNDARPE/Secretaria de Educação do Estado, foi lançado ontem, dia 1o. de dezembro, às 19 horas, no Museu do Estado (Av. Rui Barbosa, 660, Graças, Recife, PE), como parte das homenagens do Governo de Pernambuco ao Centenário de Nascimento de Dom Helder Camara.
Na próxima postagem publicaremos poemas de Dom Helder Camara criados sobre os poemas "Memórias do Boi Serapião", "Fazenda Nova" e "A solidão e sua porta", de Carlos Pena Filho.