sábado, 13 de julho de 2013

A PALAVRA DE HERMILO BORBA FILHO (2)





Pesquisa sobre música nordestina 

"Bom, nesses quatro elepês podem ser encontrados vários ritmos da nossa região : frevo em todas as suas modalidades, violeiros, cirandas, bumba-meu-boi,samba de roda, bambelô, emboladas e terno de pífanos.  Várias dessas músicas foram tratadas pelo Quinteto Violado e outras diretamente gravadas." (JORNAL DO COMMERCIO, Recife, PE, 1973) 


Vivo em permanente estado de comoção

"Nunca vivi tranquilamente, encarando isto do ponto de vista burguês. Sempre vivi em permanente tensão emocional.  (...)  Minha mulher sabe disto: ardo com o que escrevo e ardo com a situação do meu País. Em qualquer situação escrevi bem; não muito, mas de boa qualidade. (...) Vivo em permanente estado de comoção.  (A GAZETA, São Paulo, SP, 1973) 


Contos : uma nova linguagem 

"É um livro (O GENERAL ESTÁ PINTANDO) composto de várias novelas, com tudo acontecendo em Palmares.  É uma tentativa de uma nova linguagem, para dar corpo a essa coisa que é constante no Nordeste e com quem a gente vive diariamente que é o mágico.  Em Palmares, as pessoas voam, morrem, ressuscitam, transformam-se em bichos, e por aí vai..."  (JORNAL DA SEMANA, Olinda, PE, 1974) 


Toda obra de ficção é autobiográfica 

"Toda obra de ficção é, num sentido essencial, autobiográfica. Ninguém arranca nada do nada. Ou você inventa partindo de uma realidade-real (a definição, excelente, é de Vargas Llosa), ou de uma realidade-imaginada. Quer dizer, ou você viveu ou viu viver a situação, ou você a extrai de sua imaginação. De qualquer modo, a obra é um resultado do seu eu, do seu mundo exterior ou do seu mundo íntimo."  (Revista ELE ELA, São Paulo, SP, 1974) 


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Trechos de entrevistas concedidas pelo escritor Hermilo Borba Filho
e reunidas no livro A PALAVRA DE HERMILO, organização de 
Juareiz Correya e Leda Alves, com prefácio de Ricardo Noblat.  
(Companhia Editora de Pernambuco - CEPE / Secretaria da Casa Civil / 
Governo de Pernambuco, Recife, PE, 2007.  

sexta-feira, 12 de julho de 2013


A PALAVRA DE HERMILO BORBA FILHO







O Recife e o teatro profissional 

"Seguindo o exemplo dos grandes centros teatrais como Rio e São Paulo, o Recife dá um grande passo à frente na formação de uma mentalidade teatral no sentido profissional."   (DIARIO DA NOITE, Recife, PE, 1958) 


TPN e a valorização do autor brasileiro 

"O Teatro Popular do Nordeste mantém os mesmos princípios, em bases profissionais, que nos orientaram na campanha dos idos de 40, isto é, a valorização do autor brasileiro, pois, sem autor nacional, principalmente os do Nordeste como marca de uma região que é a mais trágica e a mais poética do Brasil, o nosso teatro não existirá." (DIARIO DA NOITE, Recife, PE, 1960) 


Nosso teatro já atingiu a sua maioridade 

"Um teatro que tem um Ariano Suassuna, por exemplo, é um teatro que já atingiu a sua maioridade.  A Ariano junte nomes como os do precursor Martins Pena e dos modernos Nelson Rodrigues e Jorge Andrade, para citar apenas os mais significativos.  Uma arte não pode ser avaliada apenas pela quantidade de artistas, mas pela qualidade."  (JORNAL DO COMMERCIO, Recife, PE, 1964) 


O autor de "Sol das Almas" 

"O livro pretende contar a história de um homem religioso que, por várias etapas, termina aniquilando-se pelo caminho do sexo.  Ao lado desse clima que me tentava, havia outro, o do suicídio..." (JORNAL DO COMERCIO, Rio de Janeiro, RJ, 1964) 


Assim fala um escritor maldito 

"Palavrão?  Que é isto?  Só conheço palavras com o seu peso, a sua medida, o seu valor. Não tenho vergonha de palavras e as emprego exatamente para, inclusive, num sentido popular puro, designar as partes
nobres do homem e da mulher, por exemplo.  São estas palavras insubstituíveis, como são na conversa, na raiva, no ato do amor"   (DIARIO DA NOITE, Recife, PE, 1970) 


O escritor e suas confissões 

"Deparei-me com um estranhíssimo quadro de um pintor flamengo surrealista e o título saiu num estalo : MARGEM DAS LEMBRANÇAS.  Deu ao livro um certo caráter memorialista mas, por outro lado, fez com que evocasse todo um passado importante, tormentoso, alucinado.  (...)  Mas, me amparava no fato de que não poupando nem a mim, por que razão iria poupar os outros ?"  (DIARIO DE PERNAMBUCO, Recife, PE, 1972) 


Cada escritor tem a sua marca e as suas raízes 

"É claro que cada escritor tem a sua marca e as suas raízes das quais é inteiramente impossível fugir de vez. (...) Eu não me situo, ou melhor, não situo a minha obra em função de um regionalismo preconcebido."  (JORNAL DO COMMERCIO, Recife, PE, 1972) 


O Henry Miller brasileiro 

"Compararem-me ao Miller foi bom para mim: fez-me perder o medo às palavras. Quem não o tem, esse medo ? Afora isso, a  literatura confessional que eu faço é tão antiga como o mundo.  Encontra-se em Santo Agostinho, em Rousseau, na Anais Nin..."  (DIARIO DE LISBOA, Lisboa, Portugal, 1972) 


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Trechos de entrevistas concedidas pelo escritor Hermilo Borba Filho
e reunidas no livro A PALAVRA DE HERMILO, organização de 
Juareiz Correya e Leda Alves, com prefácio de Ricardo Noblat. 
(Companhia Editora de Pernambuco - CEPE / 
Secretaria da Casa Civil / Governo de Pernambuco, Recife, PE, 2007) 


terça-feira, 9 de julho de 2013

HERMILO BORBA FILHO E SEUS ROMANCES






          Com alguns contos publicados esparsamente em jornais e revistas, o ficcionista pernambucano Hermilo Borba Filho só estréia em livro aos 40 anos de idade, com jovial maturidade, iniciando um retrato vivo da sua cidade natal - Palmares -,  que aparece em sua gênese dentro de uma narrativa meio cinematográfica : o romance OS CAMINHOS DA SOLIDÃO, publicado, em 1957, pela José Olympio Editora, do Rio de Janeiro(RJ). Em 1964 a Editora Civilização Brasileira (Rio de Janeiro, RJ) publica o seu segundo romance - SOL DAS ALMAS -, que amplia o retrato da cidade transformada em um painel onde, segundo o próprio Hermilo, em entrevista concedida a Sebastião Uchoa Leite (Jornal do Commercio, Recife, 1964), ele foi "mais além, porque dentro da mesma atmosfera nordestina parti para o campo da moral e do pecado."  Um belo romance, talvez o mais ambicioso do escritor, estruturado com as estações de uma viagem de trem de Palmares ao Recife delimitando cada capítulo. O início da viagem é uma fuga e qual será o real destino da sua chegada ?

          Ao escrever a tetralogia UM CAVALHEIRO DA SEGUNDA DECADÊNCIA - integrada pelos romances "Margem das Lembranças", "A Porteira do Mundo", "O Cavalo da Noite" e "Deus no Pasto" -, publicada entre os anos de 1966 a 1972, pela Editora Civilização Brasileira, o escritor então se afasta desse projeto pictórico do ambiente rural da sua cidade em construção e dos seus interiores humanos.  E mergulha, num processo novo, igualmente comprometido com a sua terra mas inteiramente pessoal, mais dolorido, criando, a partir da sua adolescência, em Palmares, da juventude no Recife, da maturidade em São Paulo e de volta ao Recife e a Palmares, uma obra autobiográfica de primeira grandeza (que a sua modéstia e o seu despojamento denominaram de "segunda decadência"...)  Nessa luxuriosa e corajosa tetralogia de romances, confessaria Hermilo ao jornalista Ricardo Noblat (Revista ELE ELA, São Paulo,SP, 1974) que havia esgotado as suas "andanças sociais, políticas, religiosas, sexuais."  Considerava que a sua catarse estava feita, sua confissão executada, suas penas cumpridas.

          O primeiro romance da tetralogia - "Margem das Lembranças" - foi traduzido na Argentina (Editiones de La Flor, Buenos Aires, 1969) e proibido, por um tempo, como obra pornográfica; julgado nos tribunais "da inquisição" portenha, foi considerado uma obra de arte e consequentemente liberado.  Em 1975 esse romance foi também publicado na França (Editions Stock,Paris).

          AGÁ foi o seu último romance publicado (Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, RJ).  Inventivo, ousado, é um livro diferente de toda a obra romanesca de Hermilo publicada até então,  onde ele explora, com consciente experimentalismo, todas as possibilidades de comunicação da sua prosa.  O escritor explica, em uma entrevista concedida no Recife a José Maria Andrade para a Revista VEJA (e não publicada )  em 1975 :  "Quando lancei mão, em AGÁ, dos quadrinhos, executados por esse excelente pintor que é José Cláudio, o que eu tinha em mente era dar, em texto esquemático, portanto mais direto, e em imagem, portanto mais contundente, a história, no Brasil, da luta pela liberdade e a história paralela da tortura, pelo menos até o século XIX".

          Sobre o seu trabalho como romancista, dizia Hermilo Borba Filho :  "O processo de criação, na cabeça, é lento, mas o processo de escrever é rápido. Escrevo diretamente à máquina e sem rasuras quase. Creio que todo romancista tem, desde que se entende de gente, os romances dentro de si : recordações, experiência de vida, fatos que o atingem, histórias por ouvir dizer, tudo se armazena e, em determinado momento, pode tomar forma."  
                                                                                                         (Texto de Juareiz Correya)