quinta-feira, 17 de julho de 2008

POESIA DE JUAREIZ CORREYA NA REVISTA "CONTINENTE"

LIMITES URBANOS


A insegurança bate à tua porta
Como uma venda lotérica
Um anúncio de jornal
Ou um pedido de pão.

A rua te assalta
Com postes acesos
À luz do dia
E as casas não te encontram
Portas não te abraçam
Janelas não te vêem.

Ônibus e carros buzinam
Estragos desenfreados
Sobre os nervos do teu medo.

Estás só como ninguém
Crucificado na paisagem
Desaparecido na vertigem
Do passeio da tua casa à cidade
Sozinho como uma multidão cega
Perdido no teu próprio sequestro
Sem resgates ou exigências
Como um número que não conta
Um nome que não existe.




UMA MULHER MADURA


Uma mulher madura
É uma mulher inteira.
Mais certa. Mais ela mesma.
Não é fruta, só macia carne,
Promessa de fantasia;
É um corpo na medida
De vida mais verdadeira.
Uma mulher madura
Não olha apenas, vê;
Não fala apenas, diz;
Não nega nunca um sim
E sabe sempre ser.
Uma mulher madura
Não quer ser a ideal
Ou a qualquer mulher igual :
Sabe que é essencial.
Uma mulher madura
Completa o homem no mundo
E quando o corpo desnuda
Dá alma à própria Vida
E é o princípio de tudo.


(do livro inédito POEMAS DO NOVO SÉCULO).

Publicação da Revista CONTINENTE MULTICULTURAL /
CEPE - Companhia Editora de Pernambuco,
Recife, julho / 2008.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

ASCENSO, O NORDESTE EM CARNE E OSSO (1)

Texto de Juareiz Correya


Nestes primeiros dias de maio, acontece o aniversário de nascimento (95 anos) e de morte (25 anos) do poeta Ascenso Ferreira. O poeta nasceu em Palmares (PE), no dia 9 de maio de 1895 e faleceu, no Recife, no dia 5 de maio de 1965. Homenageamos a vida e a obra de Ascenso Ferreira. Publicamos também "Casa Grande & Senzala", último poema publicado em vida pelo autor ("O Cruzeiro", abril, 1965).


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Aníbal Torres seria apenas "o filho da professora metido a poeta", na cidade pernambucana dos Palmares, onde nasceu e viveu até os 20 anos de idade escrevendo sonetos parnasianos. Mas Ascenso Ferreira, como passou a chamar-se, quando decidiu mudar o nome de batismo - que passou a ser Ascenso Carneiro Gonçalves Ferreira -, iria crescer para além dos limites de Palmares, na Zona da Mata Sul de Pernambuco, e se tornar um poeta de dimensão nacional, traduzindo, em carne e osso,o Nordeste, ao invadir, com a sua voz original, o Modernismo brasileiro.

A sua ascensão, que atravessou décadas de forma progressiva, parece ter sido original e unicamente prevista por ele, ao adotar o novo nome - Ascenso -, identificação fácil e própria para, com o sucesso e a popularidade, virar simplesmente, ASCENSÃO, apelido carinhoso perpetuado entre conhecidos e amigos.

O poeta era mais do que um cantor da sua terra, o Nordeste. Era o verdadeiro menestrel moderno, símbolo de tempos novos, anti-modelo, anti-artista, de vozeirão e tipo assombroso, uma figura avantajada em todos os sentidos, mais retrato de senhor-de-engenho abastado do que de boêmio e poeta popular, que reinventou a poesia do Nordeste, ao escrevê-la e recitá-la. À frente do seu tempo, Ascenso foi o primeiro poeta brasileiro a gravar os seus poemas em disco, e também um precursor da geração-mimeógrafo, dos poetas marginais, alternativos e independentes : ele mesmo vendia, de mão em mão, os seus livros e discos.

Ascenso foi uma espécie de santo de casa que fez milagre, até ele mesmo reconhecia isto. Pernambuco, o Nordeste e vários Estados brasileiros tiveram o privilégio de conviver com a sua figura mítica e desmistificadora, um poeta autêntico, verdadeiramente importante, sem pose e posses, e sem qualquer frescura. Ainda hoje seu nome e sua vida têm sabor de lenda, e sobre ele se contam e recontam as mais incríveis, engraçadas e absurdas histórias. Lírico, folclórico, piadista, mulherengo, grosseiro, ingênuo, político, menestrel, provinciano, cabra de engenho, cosmopolita, catimbozeiro, dançarino, depravado, amigo, companheiro, doce, irmão, chapa de Juscelino, Getúlio e Arraes, comerciante, camelô de poesia, comedor e bebedor, grande, graúdo (só não entrou no céu por causa do tamanho), Ascenso, Ascensão. O homem e a obra foram eternamente a mesma coisa. Ascenso era, mais do que ninguém, ele mesmo. Outro como Ascenso, diria a sua companheira, Maria de Lourdes Medeiros, lembrando o que foi dito em relação a Chopin (de que só nasce um Chopin de cem em cem anos) "vai custar muito mais de cem anos pra nascer".


(Em LETRAS & LEITURAS, caderno Folha 2, da "Folha de Pernambuco",
Recife, sábado, 12 de maio de 1990).