sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

POESIA VIVA DO RECIFE: "O CANTO DO GALO", de Robson Sampaio




Que canto é esse,
que sacode a multidão ?
Que canto é esse,
que mexe com o coração
e que acorda o Recife ?

É o canto do Galo,
é o som da Madrugada, 
é o canto do Galo,
do Galo da Madrugada.   

É o canto e o encanto,
de gente nas ruas, ruas de gente,
mar de frevo, frevo da gente,
frevo do Galo. 


(Da antologia POESIA VIVA DO RECIFE,
organizada por Juareiz Correya)


_____________________________________
Transcrito da AGENDA CULTURAL 
- Ano 17, Número 198, Fevereiro 2012 -
Prefeitura do Recife / Secretaria de Cultura /
Fundação de Cultura Cidade do Recife     
www.recife.pe.gov.br/agendacultural    



quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

MODERNISMO "COPYRIGHT BY ASCENSÃO" : A ORIGINALIDADE DE "CATIMBÓ" (2)




..................................................................


     O estudo de Mário de Andrade é ainda hoje um dos mais completos já realizados sobre a poesia de Ascenso Ferreira, todo ele competente, clarificador, de exposição honesta e brilhante.  Ele soube identificar imediatamente não só o ritmo novo da poesia de Ascenso, a bonita força lírica, com cheiro profundo de terra e de povo, como  os efeitos orais de todos os gêneros, dizeres antiquados, modismos sintáticos ou vocabulares originados da incultura popular, chaves-de-ouro, seu rapsodismo cantador, um compromisso estabelecido entre o verso metrificado e o verso livre, todas as suas soluções rítmicas...  Identificou, igualmente, com precisão, as tendências perigosas e o que qualificou de "qualidade deletéria", do ponto de vista social, do livro CATIMBÓ, afirmando que por causa dele poderia surgir um novo regionalismo, exacerbado e particularista como o próprio livro, que era exclusivamente bárbaro e pernambucano, e que em outros estados brasileiros CATIMBÓ pareceria exótico.  Mostrou ainda o prejuízo das imitações já surgidas e a limitação do poeta aos seus processos, já repetitivos, como o seu ritmo de estribilho. Suas restrições ao lírico, não ao lirismo de Ascenso, são perfeitas. Ele diz simplesmente que Ascenso tem um lirismo sentimental da melhor água, porém, os poemas sentimentais do livro são muito ruins.  E ataca as contradições já  vivenciadas  por Ascenso entre o folclorismo estilizado e sistematizado em CATIMBÓ e o folclore teatral do próprio poeta, diante do "auditório" que se delicia com a recitação direta, mais colorida e divertida.  Ele acusa Ascenso de poder se tornar, no futuro, um imitador de si mesmo, porque o folclore materializado em CATIMBÓ, embora variado, não é fecundo.

     Manuel Bandeira, mais tarde, prefaciando a edição de luxo de POEMAS, lançada em 1951, se deteria sobre a originalidade da poesia de Ascenso Ferreira ressaltando a sua constante agilidade e versatilidade rítmica :

     Verso metrificado, verso livre, toada musical, frases soltas, todos esses elementos do discurso poético se fundem pela mão de Ascenso numa coisa só, peça inteiriça, onde não se nota a menor emenda, a menor fenda.  Não conheço, na poesia brasileira culta, na poesia culta de nenhum outro país, poeta que, a esse respeito, supere o pernambucano.

     Sérgio Milliet, no prefácio à edição popular do mesmo livro, faz a seguinte afirmativa :

     Na renovação poética do Brasil, já o observou Manuel Bandeira, o grupo do Recife escapou à influência imediata e imperialista dos modelos europeus. Da revolução que se iniciou em São Paulo só lhe interessou a liberdade conquistada. Graças a ela pôde não somente assenhorear -se de novas técnicas mas ainda ir pesquisar as soluções tradicionais e populares.  Daí o valor brasileiro, talvez intraduzível - de poetas como Joaquim Cardozo e Ascenso Ferreira.

     E Roger Bastide falaria do poeta de todas as belezas da região nordestina como um autêntico poeta popular :

     Aliando a intuição à ciência, ele realizou algo muito difícil, a poesia popular. Pois note-se que o povo não faz poesia popular ou faz uma cópia má da poesia dos burgueses, ou canta sentimentos elementares com as formas tradicionais e um vocabulário de extrema pobreza (...)
     Era preciso escolher os termos que, no vocabulário, possuíam mais força de sugestão, ou mais riqueza de sensualidade; era preciso tirar na linguagem os torneios de frase que tinham uma significação poética, enfim, era preciso possuir, no mais alto grau, como Ascenso Ferreira, o senso do ritmo, que faz com que ouçamos em seus versos as pisadas surdas dos bois na caatinga, a sufocação de um peito oprimido pelos fantasmas surgidos da noite, o rodar da turbina da usina, o trem de Alagoas...



     O primeiro poema modernista de Ascenso, de inteira brasilidade, como queria Câmara Cascudo, ou, como quis o próprio Ascenso, de completa nordestinidade, ou, como queria ainda Mário de Andrade, de pura pernambucanidade, foi divulgado na revista A Pilhéria, do Recife, que anunciava, em 1926, a publicação de CATIMBÓ.  O poema, intitulado "Lusco-Fusco", apareceu no livro com o título definitivo de "Boca da Noite" :

     Já não brincam como crianças as árvores verdes,  
     as lindas árvores verdes de minha terra tropical !
     Meninas obedientes vão cedo para o agasalho
     e vestem o timão pardacento das sombras !

     No rio lerdo as baronesas movem-se lentas. 
     Tão lentas que até parecem paradas !
     - As baronesas que vão a caminho do mar...

     Cantam as araquãs na mata silenciosa
     onde há rumores confusos de vozes estranhas...
     - Talvez pássaros que se aninham !
     - Talvez caiporas a gritar !

     Ai!  Eu tenho medo das caiporas 
     que andam pelas florestas a vagar...

     No azul cansado brilha primeiro o olho vivo da Papa-Ceia !
     E eu vejo a Boca da Noite
     mastigando o sol 
     como um fruto passado.


     E o seu poema "Catimbó", que se destacaria como sugestivo título do primeiro livro publicado, uma estranhíssima canção de amor, já estava sendo conhecido e reconhecido nos salões onde o poeta apresentava os seus recitais :

     CATIMBÓ

     Mestre Carlos, rei dos mestres, 
     aprendeu sem se ensinar...
     - Ele reina no fogo !
     - Ele reina na água !
     - Ele reina no ar !

     Por isto, em minha amada, acenderá a paixão que consome !
     Umedecerá sempre, em sua lembrança, o meu nome !
     Levar-lhe-á os perfumes do incenso que lhe vivo a queimar.  

     E ela há de me amar.
     Há de me amar...
     Há de me amar...
      - Como a coruja ama a treva e o bacurau ama o luar !

     À luz do sete-estrelo nós havemos de casar !
     E há de ser bem perto.
     Há de ser tão certo.
     como que este mundo tem de se acabar...

     Foi a jurema da sua beleza que embriagou os meus sentidos !
     Eu vivo tão triste como os ventos perdidos
     que passam gritando na noite enorme...

     Porque quero gozar o viço que no seu lábio estua !
     Quero sentir sua carícia branda como um raio da lua !
     Quero acordar a volúpia que no seu seio dorme ...
     E hei de tê-la,
     hei de vencê-la,
     ainda mesmo contra  seu querer ...
     - Porque de Mestre Carlos é grande o poder !

     Pelas três-marias... Pelos três reis magos ... Pelo sete-estrelo...
     Eu firmo esta intenção,
     bem no fundo do coração,
     e o signo-de-salomão
     ponho como selo...

     E ela há de me amar...
     Há de me amar...
     Há de me amar...
     - Como a coruja ama a treva e o bacurau ama o luar !

     Porque Mestre Carlos, rei dos mestres,
     reina no fogo... reina na água... reina no ar...
     - Ele aprendeu sem  se ensinar...


(Texto de JUAREIZ CORREYA)


_______________________________________________________
Capítulo 4 do livro ASCENSO, O NORDESTE EM CARNE E OSSO,
de Juareiz Correya 
- Coedição da Nordestal Editora e Edições Bagaço,
Recife, PE, 2001
Apoio Cultural : Fundação Casa da Cultura Hermilo Borba Filho,
Secretaria de Educação, Departamento de Letras/FAMASUL,
AEMASUL / Prefeitura dos Palmares,
e Secretaria de Educação / Prefeitura Municipal de Água Preta, PE.



terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

MODERNISMO "COPYRIGHT BY ASCENSÃO" : A ORIGINALIDADE DE "CATIMBÓ"





     O Modernismo já assaltara Ascenso, salvando-o de vez de camisa-de-força dos "cânones da poesia antiga", e ele passou a se fixar na nova estética do verso livre modernista, com assumida carga de brasilidade, encorajado pela presença de Guilherme de Almeida em Pernambuco, cuja recitação do poema Raça, no Teatro Santa Isabel, foi o "abre-te sésamo" de Ascenso para as descobertas inusitadas da sua poética revolucionária.  A passagem de Guilherme de Almeida se deu em 1925. Ele toma conhecimento da poesia de Ascenso e o incentiva.

     Há um ano Ascenso já escrevia a sua poesia deliberadamente modernista, com publicações na revista Mauricéia e Revista de Pernambuco e participação em recitais no Teatro Santa Isabel.  Luís da Câmara Cascudo assinala a mudança definitiva da poesia parnasiana para a poesia modernista, que ele acompanhou de perto :

     "Ascenso, durante cinco anos, foi um companheiro dileto, solidário com as caminhadas sem rumo, namorando casario colonial, calcando as pedras que viram Nassau e ceiando peixe frito num frége ou devorando abacaxis no cais que se chamava dos abacaxis.  Essas horas eram delirantemente poéticas. Assisti Ascenso largar o Sol da Primavera e escrever e dizer seus versos iniciais, absolutamente copyright by Ascensão. Animei-o a desacatar as meninas que gemiam poemas líricos e bradar os versos novos, cheirando a mato e brasilidade, livre de títulos e de doutrinas."

     O pessoal da Revista do Norte - Joaquim Cardozo, José Maria de Albuquerque e Mello, Benedito Monteiro, Luís Jardim, Osório Borba e outros - era o grupo mais incentivador de Ascenso.  Além desse grupo, havia também José de Gois Filho, da Revista de Pernambuco, e Joaquim Inojosa, da revista Mauricéia.

     Jornais e revistas do Recife disputaram logo os primeiros poemas modernistas de Ascenso, na base do incentivo promovido também por Aníbal Fernandes, no Diário de Pernambuco, e por Gouveia de Barros.  O primeiro livro de Ascenso, CATIMBÓ, recebeu o carinho do pessoal da Revista do Norte, com capa e ilustração de Joaquim Cardozo e coordenação gráfica de José Maria de Albuquerque e Mello, que fez das tripas coração porque os recursos gráficos da revista não eram suficientes para uma boa programação, como a que resultou com o seu empenho. A edição do livro foi financiada por um grupo de amigos : Batista da Silva, João Cardoso Aires, José Bezerra Filho, Domingos Ferreira, Luiz Cedro, Jaime Coimbra, Ibrahim Nejaim, Antiógenes Chaves. 

     A poesia modernista de Ascenso Ferreira deslumbrou o pessoal da Semana de Arte Moderna, de São Paulo, e CATIMBÓ mereceu um consagrador estudo de Mário de Andrade no Diário Nacional, publicado em 1927, destacando o livro com a posição elogiosa de "um dos mais originais do modernismo brasileiro". 

     Nesse tempo Ascenso já tinha estabelecido sua amizade com Manuel Bandeira. O poeta viaja ao Rio, para divulgar CATIMBÓ, e recebe críticas negativas de Medeiros de Albuquerque. Mas João Ribeiro, Peregrino Junior, Álvaro Moreyra, Carlos Dias Fernandes e Tristão de Athayde, considerado o principal crítico literário brasileiro, na época, não lhe pouparam elogios.   

     A passagem de Mário de Andrade pelo Recife, em 1928, aproxima pessoalmente os dois poetas e nasce daí uma saudável amizade entre ambos, estabelecendo-se um intercâmbio literário e cultural de importância fundamental para o desenvolvimento de toda a obra de Ascenso Ferreira. 

     Quando Ascenso vai ao Rio novamente, e a São Paulo, em 1929, é para ser aplaudidíssimo em recitais na residência de dona Olívia Penteado e no Teatro de Brinquedos, conduzido por Mário de Andrade.  Dele se aproximam Eugênia Álvaro Moreyra, Cassiano Ricardo, Adelmar Tavares, Menotti del Picchia, Afonso Arinos de Mello Franco e Tarsila do Amaral.  

     Mário de Andrade volta ao Recife em 1930 e se hospeda na casa de Ascenso, crescendo a identificação entre ambos por meio de trabalhos e de pesquisas folclóricas.  Mário haveria de incentivar Ascenso, por muito tempo, para que ele desenvolvesse estudos sobre a cultura popular do Nordeste. Mas era muito resistente a preguiça do poeta e ele produziu pouco nesse campo. 

     Ascenso trabalhava a custo.  Tanto é que, lançando com sucesso o seu primeiro livro, em 1927, só viria a apresentar um outro título ao público em 1939 e um terceiro título em 1951,  com a reunião, num só volume,  dos dois títulos anteriormente publicados : em edição de luxo e em edição popular (esta, publicada  em 1953, por sugestão de Manuel Bandeira). 

     Mário de Andrade, no seu estudo publicado no Diário Nacional, em São Paulo, e que apresenta posteriormente a nova edição de CATIMBÓ (1928), anota, com retidão crítica e exemplificadora, objetivamente, a contribuição de Ascenso :

     "Só mesmo Ascenso Ferreira, com este CATIMBÓ, trouxe pro Modernismo uma originalidade real, um ritmo verdadeiramente novo."

     Mário de Andrade viu nisso o mérito principal de Ascenso, considerado por ele um mérito inestimável.  E prosseguiu no seu exame criterioso :

     "Agora, não basta originalidade para uma obra ter valor não.  O ritmo novo que Ascenso Ferreira veio cantar para nós, era, além de novo, emocionante.  Por causa da bonita força lírica do poeta e o cheiro profundo de terra  e de povo que o poema trazia."

..........................................................................................................................................

 (Texto de Juareiz Correya)


_______________________________________________________
Capítulo 4 do livro ASCENSO, O NORDESTE EM CARNE E OSSO,
de Juareiz Correya  -
Coedição da Nordestal Editora e Edições Bagaço,
Recife, PE, 2011.
Apoio Cultural : Fundação Casa da Cultura Hermilo Borba Filho,
Secretaria de Educação, Departamento de Letras/Famasul,Aemasul/
Prefeitura dos Palmares e Secretaria de Educação / Prefeitura
Municipal de Água Preta (PE).
  

    

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

O MODERNISMO (Mário da Silva Brito)





    "O movimento modernista irrompe oficialmente no Brasil com a Semana de Arte Moderna, ocorrida em 1922, tendo por cenário o Teatro Municipal de São Paulo. Ali se realizaram três festivais nos dias 13, 15 e 17 de fevereiro, que apresentavam a nova doutrina através de conferências...

     A poesia modernista nasce com Mário de Andrade. Deriva dos versos de PAULICÉIA DESVAIRADA. O volume, além de poemas originais, inteiramente novos em relação à poesia acatada pelos meios cultos, é precedida de um Prefácio Interessantíssimo, conforme o próprio autor o intitulou, que constitui verdadeira plataforma da nova estética, uma erudita e polêmica colocação dos problemas que informam a poesia."  (MÁRIO DA SILVA BRITO)




__________________________________________
Do livro O MODERNISMO, de Mário da Silva Brito
- Rio de Janeiro, RJ, 1959.