sábado, 13 de dezembro de 2008

CEPE reedita as memórias políticas de Paulo Cavalcanti

A tetralogia de memórias políticas O CASO EU CONTO COMO O CASO FOI, de Paulo Cavalcanti, será relançada nesta segunda-feira, dia 15 de dezembro, a partir das 19 horas, nos jardins do Museu do Estado (Av. Rui Barbosa, Graças, Recife). A reedição da Companhia Editora de Pernambuco-CEPE / Secretaria da Casa Civil / Governo de Pernambuco, "três décadas depois do lançamento do primeiro volume, reafirma a importância do parlamentar, dirigente comunista, advogado, jornalista, historiador e, ao mesmo tempo, personagem da história dos movimentos populares do Estado", informa a CEPE na contracapa do Volume I intitulado Da Coluna Prestes à queda de Arraes.

Considerado um dos mais importantes painéis já produzidos sobre a história política e social brasileira, particularmente do Nordeste, O CASO EU CONTO COMO O CASO FOI, de acordo com as palavras do próprio autor, alcança esta dimensão :

"Na classificação dos estudos históricos, quanto à atitude que se assume diante dos fatos
sociais, pode-se dizer que o relato de 50 anos de reminiscências, contidos neste livro, o inclui entre as obras da chamada história combatente, participante, engajada, com a honesta e confessada paixão pelo heroísmo do povo, homens e fatos pintados com suas cores próprias, quando não em sua rude crueldade."

Militante comunista, preso político, advogado político, promotor público aposentado, ex-deputado estadual e membro da Executiva Nacional do PCB, ex-vereador da Cidade do Recife, nascido em 1915, o escritor pernambucano faleceu, na capital pernambucano, ao completar "80 anos de humanismo e de bom combate".

Com as suas memórias políticas agora reeditadas, Paulo Cavalcanti volta ao convívio do povo pernambucano, sobretudo das novas gerações, contando exemplarmente (O caso eu conto como o caso foi : / o ladrão é ladrão o boi é boi") a história do seu tempo.

Em síntese, o primeiro volume da tetralogia apresenta a infância do escritor; o Estado Novo e os tempos da sua formação universitária; a ascensão das esquerdas em Pernambuco; Arraes, prefeito, governador, e o golpe militar de 1964; e o julgamento de Gregório Bezerra, prisões, torturas e mortes de militantes pernambucanos.




quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

CANTOS DA DEFINITIVA PRIMAVERA, de Sérgio Albuquerque

VIII


Guerreira ausência
de teu corpo moreno
de tua selvagem
vegetação
de continente novo
tua vasta cabeleira verde
teu esqueleto bem desenhado
de praias
teus peixes nítidos
e ágeis como facas líquidas
teu povo miserável
porém alegre
teu povo menino
com todas as nuanças mestiças

aparecendo em cada gesto
em cada entonação de voz
em cada artefato
ou cerâmica construída
tua gigantesca alma
amada e doce

continente de sonho
e infância conjugados

tuas prisões
tua solidariedade inquebrantável
tua quente atmosfera irmã

meu amor
minha América

tecida no canto irmanado
de todos os vegetais
minerais
animais e homens

triste Amerique
douce Amerique
pays de mon enfance

"la desgreñada muchacha"
la loca hija de mis sueños
casa iluminada

portão de ferro

aldeia morta
solidão

tus lunas de plata nueva

tuas selvagens coxas
acariciando minha cintura
coxas firmes e animais

em cada pulsação
tua força incontida de Touro
teu indefinido futuro

cambiante como uma niña
em plena puberdad

os pelos enormes e quentes
de tua continental

costa ensolarada

densidad casta de tus sueños nuevos
tus nervios animales

tua densidade lendária

sou apenas coração

mas isto é suficiente
para te compreender
e amar
mesmo com oceanos nos separando
pois te carrego em cada glóbulo do meu sangue
te bebo em cada gota do meu açúcar
sinto o teu corpo vibrar sob os meus dedos
teu imenso sexo
acariciar o meu.


(São Paulo, 1998).
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Da antologia inédita EM NOME DA AMÉRICA
- Poemas Brasileiros do Século 20

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SÉRGIO ALBUQUERQUE nasceu no Recife (PE), em abril de 1946. Seu pai, o professor
Moacir de Albuquerque, era um estudioso da literatura brasileira, portuguesa e francesa e um crítico literário respeitado. Sérgio publicou o seu primeiro livro de poesia no ano de 1968 - MURAIS DA MORTE ( Recife, Editora Universitária/UFPE). Escreveu artigos de crítica sobre autores brasileiros e estrangeiros publicados em suplementos literários dos principais jornais do Recife. Viajou,muito jovem, para a França, país que considera sua segunda pátria. Seu primeiro texto escrito no exterior, uma novela de vanguarda intitulada IRENE, escrita aos 23 anos de idade, foi publicada no Brasil, em 1974, pela Editora Civilização Brasileira.
Atualmente essa novela está sendo traduzida para as línguas francesa e inglesa. Sérgio Albuquerque publicou ainda os livros SINFONIA (Recife, 1991) e CANTOS DA DEFINITIVA PRIMAVERA (São Paulo, 1998). Deixou inéditos romances, contos e poemas. Faleceu, no Recife, em agosto deste ano de 2008. Era casado com a poetisa Lucila Nogueira, com quem teve três filhas.