sábado, 3 de dezembro de 2011

O CAVALO DA NOITE (Romance 3), de Hermilo Borba Filho




1
Chove solidão dentro de mim.
(De uma canção popular)


     "Calçadas escorregadias, a garoa vestindo os arranha-céus cinzentos, muitos de janelas acesas, portas largas despejando homens e mulheres, todos também em cinzento, apressados, cabeças baixas; táxis, carros particulares, ônibus, bondes, ruas nunca imaginadas, viadutos, nem um nome brasileiro nos anúncios, médicos, advogados, corretores, dentistas, escritórios; os luminosos riscavam a noite e, varando o cinza, espalhavam raios violetas, verdes, azuis, amarelos, transformando a multidão em seres onde eu não podia descobrir corações, fígados, rins, pensamentos.  Pelo menos havia a presença da água, embora de chuveirinho, caída do céu, mas até onde a vista alcançava eram somente blocos de cimento, estruturas metálicas comprimindo-me na busca, de valise na mão, duas ou três pessoas a quem parei pelo braço livraram-se  num safanão sem ligar para a minha angústia, com certeza não existia o Bar Americano, um homem de sol perdido na noite gelada, sapatos encharcados, jamais poderia supor um mergulho naquele pesadelo pluvial, consultando meu relógio verifiquei que eram apenas sete horas da noite, mas as trevas se adensavam até o limite dos prédios, do mais alto, estava atolado, onde encontrar Albuquerque naquele burgo de milhões de habitantes ? ainda não ouvira uma palavra em português, somente frases em italiano, turco, alemão, francês, inglês e outras que tais, o safado não fora ao aeroporto, quem sabe como me receberia se eu descobrisse o Bar Americano, seu ponto costumeiro conforme me dissera meses atrás, das seis às oito. Tinha de procurar um hotel, era o mais lógico, e no amanhã, com o sol, a cidade seria outra, existiam telefones, meu dinheiro ainda podia dar para vários dias, o principal era refugiar-me do frio depois de encher o estômago com uns tragos de conhaque e um filé sangrento, debaixo dos cobertores, forçando a cabeça a não pensar em nada, um quarto de hotel é como um túmulo e eu tinha necessidade de morrer por longas horas..."



(Fragmento inicial do romance O CAVALO DA NOITE, de Hermilo Borba Filho - Volume 3 da tetralogia "Um Cavalheiro da Segunda Decadência", Edições Bagaço, Recife, PE, 2010. / Lançamento nesta segunda-feira, dia 5/dezembro/2011, às 19 horas, na FUNDAJ (Rua Henrique Dias, 609, Derby, Recife, PE)


_______________________________________

OPINIÕES SOBRE O AUTOR

"Irreverente, zombeteiro, rabelaiseano, boccaciano, Hermilo Borba Filho vai tecendo os seus enredos, numa enxúndia de palavras que faz o sertão virar mar. Sua linguagem choca em catadupas.  Uma pancada intencional de bom ou mau gosto.  Uma bacanal descritiva. A prosa é uma orgia romano-tropicalista que certas situações de uma sensualidade erótica mais acentuam." (HÉLIO PÓLVORA)


"Entre os mais representativos escritores latino-americanos atuais, inscreve-se o nome de Hermilo Borba Filho, autor da tetralogia intitulada  Um Cavalheiro da Segunda Decadência.  Esta sua obra representa, sem dúvida, uma das mais lúcidas tentativas de elaboração romanesca da realidade humana das quatro últimas décadas da sociedade brasileira." (SÉRGIO MOACIR DE ALBUQUERQUE)

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

A PORTEIRA DO MUNDO (romance), de Hermilo Borba Filho




1
Se viste, é como se não houvesse visto, e se ouviste, sê surdo.
(HERMES)


     "Água, água, água, mais água. Outra cidade-água, era inútil, dela não podia fugir, meus olhos se habituavam à chatice das superfícies planas, niqueladas ou azul-esverdeadas, porque então tinha, não somente as águas brancas do rio, mas as do mar, para mim um pouco repugnantes, sempre em movimento, para baixo, para cima, para os lados, iam e vinham, agrediam, tornavam-se oleosas, mudavam de cor, invadiam, infiltravam-se, recuavam como cadelas com um pontapé no traseiro para, logo depois, avançar raivosas, ululantes. Eu estava suspenso no ar, era alado, por isto podia observá-las muito bem.  Balançava o rabo e, colocando o queixo nas mãos, olhava a cidade, também como a outra inundada pelas águas : dos mangues fedorentos de onde surgiam os caranguejos de patas peludas, obscenas, proféticos; dos braços de mar com jangadas decorativas feitas de propósito para a paisagem; dos dois rios que se acasalavam, subindo e descendo na força das marés, com mariscos, barcos, baronesas, pontes, edifícios refletidos, atletas, pescadores.  Nas nesgas de terra, nas pequenas ilhas que as baronesas houveram por bem deixar aos homens vinham, do centro para a periferia, os seres humanos : meninos de barrigas grandes e mãos sujas, mulheres feias, negros e mulatos musculosos, adolescentes arrogantes hábeis no manejo das peixeiras, desembocando na rua colorida e oriental com gritos, música, dança, lenços de seda, bibelôs, louça, frutas, sobretudo as frutas, que davam os cheiros melados e os gostos afrodisíacos, toda a multidão invadindo o mercado, indiferente ao odor dos peixes de barrigas abertas e aos pretos camarões recurvos, meditativos na morte, às carnes sangrentas de bois, cabritos e bodes, assustando as galinhas e os pombos, mergulhando as mãos nos sacos de feijão, farinha e arroz, comprando miçangas, pela garganta abaixo fazendo descer os copázios de grosso caldo-de-cana, engolindo cachaça, tudo às gargalhadas, aos berros, aos cantos, cuspindo nas cuias dos mendigos e parando na roda para ouvir o último romance queixoso, monocórdico, das aventuras e desventuras de uma Ismália em preto e branco, recortada em ângulos, um punhal à altura do peito esquerdo; traziam a lama viscosa nos pés descalços e benziam-se automaticamente defronte das igrejas geladas ao sol ardente rodeadas de casinhas coloridas, uma delas em azul forte, debruçada na pequena varanda uma moça de amarelo, seios fartos, deixando ver as coxas pelas aberturas de tábuas gastas por chuvas de cem invernos..."



(Fragmento inicial do romance A PORTEIRA DO MUNDO, de Hermilo Borba Filho - Volume 2 da tetralogia "Um Cavalheiro da Segunda Decadência" - Edições Bagaço, Recife, PE, 2010 -. / Lançamento nesta segunda-feira, dia 5/dezembro/2011, às 19  horas, na FUNDAJ (Rua Henrique Dias, 609, Derby, Recife, PE)

_________________________________________

OPINIÕES SOBRE O AUTOR 

"Seu estilo vibrátil e a técnica de composição tentada desde o primeiro romance atingem aqui a plenitude e a desenvoltura conferidas por mão de mestre do ofício.  Seu romance é, sem dúvida, um corajoso testemunho de vida autêntica e profunda..."  (NELLY NOVAES COELHO)

"... comecei a ler os volume de seu Cavalheiro da Segunda Decadência e - confesso - fiquei empolgado por eles.  Era o meu primeiro encontro com um romancista de garra." (ÉRICO VERÍSSIMO)





quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

MARGEM DAS LEMBRANÇAS, de Hermilo Borba Filho




1
Semente de amor eu sei que sou desde nascença.
(CARTOLA, sambista e pedreiro)


     " Eu estou na balança. Todos os meus atos estão num dos pratos da balança. De um lado, os demais : muitos deles sou eu, metamorfoseado, irreconhecível, adulterado; do outro, eu mesmo, integral, de carne, as pernas penduradas no vazio. E me jogo numa longa viagem do útero à morte : de um negro para outro, de um vermelho para um vermelho, de um branco para um mais que branco, diáfano, transparente, etéreo, como era antes, sempre em formação, em massa, um pastel. Este sou eu, tanto no passado - vida morta - como no presente que se estende pelos dias e pelas noites sem nada com o futuro inexistente, apenas inventado pela imaginação e, com certeza, diferente do que espero. Merda para o futuro ! Teço, neste papel, um passado real às vezes e, outras, puramente imaginado na esperança de que no fim Deus confunda o que vivi e o que inventei e me dê um saldo favorável para uma modesta pensão no purgatório.  E se, como dizem, lá o tempo se conta por bilhões, que me importa o futuro diáfano, sempre branco, em flocos, menos que a lã-de-barriguda ?

     Ouço a água cair e, tanto pode ser de uma torneira, de uma biqueira, de uma fonte, de um esgoto, como de um copo para a garganta nunca aplacada; ouço a porta bater : pode ser um ladrão na noite, o pai que se levanta para mijar, eu mesmo que entro sorrateiramente na madrugada ou uma freira que se põe à procura de panos limpos, que as freiras também menstruam; ouço um zumbido; deve ser um besouro à procura de luz, o apito engasgado do guarda-noturno, a eletricidade querendo sair do fio ou o ruído do silêncio quando se está só, olhos fechados na escuridão, com fome e ereção, desesperado.

     De olhos fechados mastigo tudo o que se passou e só vou interromper esta narrativa quando o infarto, o atropelamento, o câncer, a esclerose, uma dessas coisas me pegar de sopetão. Aqui estou de pés plantados na terra vomitando palavras. Lembro-me de tudo : dos cheiros, das cores, das palavras, de todos os atos. Embora saiba que jamais alcançarei o futuro, continuarei escrevendo até secar os dedos. O que importa é lembrar e pedir para não ser julgado.  Esta é uma tábua de lembranças."




(Fragmento inicial do romance MARGEM DAS LEMBRANÇAS, de Hermilo Borba Filho. - Volume 1 da tetralogia "Um Cavalheiro da Segunda Decadência", Edições Bagaço, Recife, PE, 2010)  /  Lançamento nesta segunda-feira, dia 5/dezembro/2011, às 19 horas, na FUNDAJ, Rua Henrique Dias, 609, Derby, Recife, PE.

_______________________________________

OPINIÕES SOBRE O AUTOR

"Como um Chagall da prosa, espalha cores pela narração afora, pinta, desenha, deforma, transfigura o real, mas sem perder o pé na realidade,  para a qual continuamente retorna, como em busca de fôlego que lhe permite atirar-se a novas proezas verbais, nunca gratuitas, mas sempre significantes, plenas de simbolismo, vinculadas ao chão." (MÁRIO DA SILVA BRITO)

"MARGEM DAS LEMBRANÇAS é o ponto de partida de uma história que envolve o povo brasileiro, numa época de angústia e sofrimento.  Graças a esses romances Hermilo Borba Filho exerceu sobre mim uma influência poderosa no conhecimento da vida e dos dramas humanos." (PAULO CAVALCANTI)


quarta-feira, 30 de novembro de 2011

O RECIFE FESTEJA HERMILO COM LITERATURA E CINEMA



    
     A Editora Bagaço, a Fundação Joaquim Nabuco, Leda Alves e a família de Hermilo Borba Filho convidam para o lançamento do documentário inédito HERMILO NO GRANDE TEATRO DO MUNDO, integrante da Coleção Teatro Volume 3, realizado pela Fundação Joaquim Nabuco através da Massangana Multimídia Produções e da tetralogia UM CAVALHEIRO DA SEGUNDA DECADÊNCIA, de Hermilo Borba Filho, pela Editora Bagaço.    

     Programação - Entrada Franca

     19h - Cinema da Fundação :
               Exibição do documentário HERMILO NO GRANDE TEATRO DO MUNDO

     20h - Jardim Interno do Edifício Ulysses Pernambucano :
               Lançamento do DVD Coleção Teatro Volume 3 - Hermlo Borba Filho
               (documentário e entrevista com o autor) e da reedição da tetralogia
               UM CAVALHEIRO DA SEGUNDA DECADÊNCIA. 

               Coquetel.

   
_________________________________________________
Data :  05 de dezembro de 2011 (segunda-feira)
Hora :  19h.
Local : Fundação Joaquim Nabuco
           Edifício Ulysses Pernambucano
           Rua Henrique Dias, 609 - Derby
           Recife - PE.


MASSANGANA MULTIMÍDIA PRODUÇÕES 
- 25 ANOS DE CRIAÇÃO