sábado, 10 de dezembro de 2011

NO MEU OFÍCIO OU FUNESTA ARTE, de Dylan Thomas




No meu ofício ou funesta arte 
Exercitado em noite calma 
Quando somente a lua assola 
E os amantes estão na cama
Com a tristeza nos seus braços,
Trabalho cantando baixinho
Não pelo pão nem pela ambição,
Ostentação, troca de encantos 
Sobre tablados de marfim
Mas pelo mais comum salário
Do mais secreto coração.  


Não pra esse orgulho a parte
Longe da irada lua escrevo
Sobre esta página ainda em branco
Não para os mortos que se empilham 
Com os seus rouxinóis e salmos 
Mas para amantes, com seus braços 
Em volta às tristezas da idade,
Que não dão prêmios nem salários 
Nem na minha arte ou ofício atentam.  


(Tradução de Laurênio Lima)


_____________________________________________
Transcrito do livro CANTOS DA OUTRA AMÉRICA,
de Laurênio Lima - Edições Pirata, Recife, PE, 1988.


quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

UM CAVALHEIRO DA SEGUNDA DECADÊNCIA, de Hermilo Borba Filho : 4 romances que são um só




MARGEM DAS LEMBRANÇAS


     O escritor é o seu melhor personagem e, em suas confissões, de forma franca, irreverente, desbocada, inicia, na década de 1930, em Palmares, a cidade onde nasceu, a sua trajetória humana. O jovem Hermilo promove as suas descobertas amorosas, sexuais, artísticas e políticas, integrado à vivência do povo - identificado com as suas virtudes e a sua degradação -,  numa narrativa crua, nua, luxuriosa e densamente poética.  A sua aventura humana transfigura a realidade de uma época brasileira de angústia e sofrimento e, particularmente, com os seus dramas, alegrias, pequenas conquistas e dissabores cotidianos, torna mais significativa a própria vida e a da sua gente.   



A PORTEIRA DO MUNDO


   Luta pela sobrevivência no Recife, empregos sem futuro, e o sonho de realização artística como homem de teatro. Mais amadurecido, o personagem Hermilo amplia, na capital pernambucana da década de 1940, o território das suas provações e emoções humanas.  Mergulha com intensidade na nova cidade de águas (como a sua Palmares), criador e criatura, devorando e sendo devorado, onde o erotismo é a sua religião.  Revolta-se com o Recife invadido pelos norte-americanos, o mundo está em guerra, e, evolui profissionalmente, dedicado à cultura artística, participando da administração pública da cidade.  Volta a Palmares para encontrar a primeira grande mulher da sua vida. Já é um encenador de projeção e dramaturgo.     



O CAVALO DA NOITE


     São Paulo, rio de concreto, mar de gente, cinema, televisão, amizades passageiras, crenças desfeitas, um mundo de quase 400 anos completamente novo.  Sem tempo de solidão, Hermilo é um homem dedicado à família, vivendo com a mulher e os filhos menores vindos do Recife, estacionado no emprego seguro de uma revista ianque.  São Paulo é uma cidade que não amanhece.  Boemia cultural, artes, artistas, taras, opulência paulistana, vidas caras e vazias.  A morte da mãe, lembrança do pai e irmãos mortos, é um retorno ao seu mundo vivo verdadeiro.  O primeiro romance publicado, dias cada vez mais cheios de livros, teatro profissional, dramaturgia nordestina na maior metrópole da América do Sul.  E uma mudança repentina : desemprego, mentiras, safadezas, tempos difíceis, a cidade grande cada vez menor.      



DEUS NO PASTO


      Volta ao Recife, ilha, continente, rio, mar. Novos caminhos de Hermilo, com experiências educacionais, literárias, teatrais, políticas, em busca da identidade cultural nordestina. Recife da década de 1960, onde vivem, o homem a cidade, agudas transformações sociais.  Encontro com a segunda grande mulher da sua vida.  As confissões de um escritor uno, indivisível, original, e ao mesmo tempo coletivo, múltiplo.  Ascensão e queda dos governos populares da capital e do Estado de Pernambuco.  O tempo negro da ditadura militar brasileira : perseguições, torturas, mortes, expulsão de amigos estrangeiros e exílio de compatriotas. Em plena maturidade, um corajoso testemunho de vida autêntica e profunda. O relato singular da sua vida se confunde com a tragédia do povo do seu país. 

                                                                                               (Texto de Juareiz Correya)

______________________________________________________________________

        A tetralogia de romances UM CAVALHEIRO DA SEGUNDA DECADÊNCIA (Margem das Lembranças, A Porteira do Mundo, O Cavalo da Noite, Deus no Pasto), de Hermilo Borba Filho, foi lançada pela Edições Bagaço, do Recife,  nesta segunda-feira, dia 5/dezembro/2011, às 19 horas, na Fundação Joaquim Nabuco - FUNDAJ (Rua Henrique Dias, 609, Derby, Recife, PE).  Uma produção editorial inédita no mercado cultural brasileiro.  Os romances da tetralogia foram lançados, pela primeira vez, em conjunto, no Brasil.   Na ocasião, lançamento (DVD) e exibição do importante documentário "Hermilo no grande teatro do mundo", com roteiro e direção de Carla Denise, realizado pela Massangana Multimídia Produções/FUNDAJ/Ministério da Educação/Governo Federal.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Edição inédita da tetralogia "Um Cavalheiro da Segunda Decadência", de Hermilo Borba Filho, lançada hoje no Recife





     A Edições Bagaço, do Recife (PE), realiza uma produção editorial inédita no mercado editorial brasileiro : publica, pela primeira vez, em conjunto, a tetralogia de romances UM CAVALHEIRO DA SEGUNDA DECADÊNCIA  (Margem das Lembranças, A Porteira do Mundo, O Cavalo da Noite, Deus no Pasto), de Hermilo Borba Filho, com lançamento a ser realizado hoje, dia 5 de dezembro, às 19 horas, na Fundação Joaquim Nabuco - FUNDAJ (Rua Henrique Dias, 609, Derby, Recife, PE). Na ocasião, será exibido o documentário Hermilo no Grande Teatro do Mundo, com roteiro e direção de Carla Denise, realizado pela Massangana Multimídia Produções/FUNDAJ.    

     A nova edição da tetralogia de Hermilo Borba Filho, graficamente impecável, é apresentada com capas distintas criadas por Moema Cavalcanti e Paulo Rocha, ilustrações de José Cláudio, e com introdução do jornalista e escritor pernambucano Maurício Melo Júnior que, em seu texto Delírios e coerências de um escritor consciente, enfatiza que a obra ficcional de Hermilo é "uma literatura que, além do pressuposto social e humano, deve ser lida como reverência à palavra, à frase perfeita."

    Hermilo Borba Filho, em entrevista concedida ao jornalista José Maria Andrade, da Revista VEJA, no final de 1975 (censurada em várias partes, Hermilo não permitiu que a revista divulgasse a sua entrevista, mutilada com os cortes da Censura), assim define a sua tetralogia :

     "Eu escrevi dez livros de ficção, dos quais somente quatro - os que compõem UM CAVALHEIRO DA SEGUNDA DECADÊNCIA - são escritos na primeira pessoa do singular, parecendo contar muita coisa da minha vida, escandalizando pela rudeza e pela nudez, a minha nudez e a dos outros, obsessivamente fiel à frase de James Joyce : "Não sei escrever sem ferir ninguém." E à minha própria declaração : "Se não me poupo, como vou poupar os outros ?"  Bem, o que aconteceu com o CAVALHEIRO foi que eu havia atingindo um ponto na vida em que o enriquecimento chegara a um nível de maturação quase passando para o podre : maturação social, sentimental, artística, tudo o mais que envolve o homem.  Escrevi Margem das Lembranças sem saber se teria coragem e forças para ir até o fim.  E fui, esvaziando-me, sofrendo mas esvaziando-me, fazendo os outros sofrer, mas esvaziando-me.  Acho que foi o meu caminho para uma aprendizagem de santidade.  Afinal de contas, estamos aqui para isso : para nos tornarmos santos. Se não conseguimos, é outra coisa.  Mas há, em minha obra confessional, uma grande mistura de "verdade" e "mentira", o que não importa do ponto de vista literário e até mesmo do ponto de vista mais restrito do romance.  Muita coisa que enojou  os leitores eu assumi de outros.  Cabe-nos até isso como escritores."

     Publicado nacionalmente por importantes editoras - Civilização Brasileira, Editora Globo, Círculo do Livro - e com livros traduzidos para a Argentina e a França, Hermilo mereceu aplausos de destacadas personalidades literárias brasileiras, a exemplo de Mário da Silva Brito, Nelly Novaes Coelho, Érico Veríssimo, Leandro Konder, Paulo Cavalcanti, Ariano Suassuna, Hélio Pólvora, Raymundo Souza Dantas, Márcio Souza, Renato Carneiro Campos, Sonia Maria van Dijck, Fernando Monteiro. 

     A Edições Bagaço está lançando toda a obra ficcional de Hermilo Borba Filho, constituída de mais três romances - Os Caminhos da Solidão, Sol das Almas, Agá -, uma trilogia de contos - O General está Pintando, Sete Dias a Cavalo, As Meninas do Sobrado - e da novela Os Ambulantes de Deus.  (Texto de Juareiz Correya)

domingo, 4 de dezembro de 2011

DEUS NO PASTO, de Hermilo Borba Filho : Volume 4 de "Um Cavalheiro da Segunda Decadência"



1
Só existe um caminho, meu senhor. O resto são veredas.
(Um cego pedinte)


     "Eu olhava pela janela e via a campina vazia, somente poucas árvores balançadas pelo vento forte que vinha do mar, um vago cheiro de maresia, porque o mangue, mais por efeito do rio, à mercê das marés baixas ou altas, conseguia sufocar qualquer odor que não fosse o da lama onde se misturavam patas de caranguejos, olhos de peixe, folhas mortas, calor de sol, frieza de estrelas, mijo, fezes, restos de comida, sangue de várias procedências; e houve um eco que eu jamais saberia de onde se originara, de que grito, por que grito, destorcido impossível saber se de gozo ou raiva assassina, talvez mesmo um simples som sem intenções, dado por dar, ato gratuito sem nenhuma intenção de ressonância, mas me havia atingido e me obrigara a desviar a atenção do trabalho na manhã do sábado.  E por que entre tantos ruídos caseiros, tantas interrupções, passagens, bater de palmas, somente o eco tivera o poder de me afastar do esquema em que  trabalhava havia horas, na ingente tarefa de preparar uma aula que não me interessava o mínimo ?
O sinal era característico : uma vaga vontade de defecar, um leve frio na espinha, um breve, mas intermitente desejo de dormir ou me aferrar a um livro, mas não, teria de dar picaretadas no papel, alinhando nomes, datas, interpretações, talvez o som que produzira o eco houvesse mesmo saído dos meus dedos, indo ao obstáculo e voltando aos meus ouvidos, poderia ser à noite, mas não outra vez, escapara pela manhã e me convidava a vagabundagens, no aparador a bebida só esperava mesmo pelo gelo, e era outra coisa, a garganta se contraía na vontade quebrando uma disciplina indispensável à conquista do imediato, eu poderia deixar de pensar na segunda-feira de alunos, cadernetas, quadro negro, didascálias, prólogos, párodos, ágons, corifeus, onkos, para me voltar ao mundo corrente de carne e massas, cama fofa, bate-papos, um joguinho para matar o tempo, ainda espantado com a mudança, no trabalho de readaptação, não se tratava propriamente de redescobrir a região, mas de incorporá-la ao meu gosto já tão abalado, vendo as coisas como se elas fossem, ao mesmo tempo, amigas e inimigas, considerando uma áfrica o exército de muriçocas, baratas, lagartixas, não adiantava estar no Recife se na Madalena não morava num casarão, mas numa daquelas casas recém-construídas, de paredes ásperas e cores agressivas, salvando-se apenas a acácia no meio do gramado, embora eu preferisse amarelo-ouro e não daquele róseo desbotado, mas em todo o caso ainda era melhor ver formiga em luta com as pétadas do que somente um muro ocre, muito novo, o mofo ainda longe. Comprazia-me no vôo dum mangangá com o zumbido que me transportava para os embola-bostas da infância e jactava-me de albergar, por breves instantes, um colibri parado no espaço tal a velocidade das suas asas, sugando o mel de uma flor vagabunda. Tentava localizar-me, depois de tantos anos, no tempo e no espaço..."



(Fragmento inicial do romance DEUS NO PASTO, de Hermilo Borba Filho - Volume 4 da tetralogia "Um Cavalheiro da Segunda Decadência", Edições Bagaço, Recife, PE, 2010./ Lançamento nesta segunda-feira, dia 5/dezembro/2011, às 19 horas, na FUNDAJ (Rua Henrique Dias, 609, Derby, Recife, PE)


_______________________________________

OPINIÕES SOBRE O AUTOR 

"Como romancista, Hermilo Borba Filho é figura singular num dos mais ricos filões literários do Brasil que é a literatura nordestina.  Sem ser estritamente regionalista mas mergulhado até à medula na cultura de sua região, seus romances parecem representar uma nova perspectiva literária, sólida, indestrutível entre a fase do realismo crítico, típico dos anos 30, época de uma literatura explicitamente social, exsudando indignação política e bastante ideologizada, e uma literatura menos historicista, mais individual e com um gosto libertário que não se envergonha frente às paixões humanas, frente ao prazer." (MÁRCIO SOUZA)


"Logo em seguida Hermilo corta a própria pele com a tetralogia UM CAVALHEIRO DA SEGUNDA DECADÊNCIA, formada pelos textos de Margem das Lembranças (1966), A Porteira do Mundo (1967), O Cavalo da Noite (1968) e Deus no Pasto (1972). Esse talho de afiado bisturi revela o homem diante de todos os seus medos, aflições, imperfeições e reviravoltas. Numa época de descrenças e mentiras o protagonista assume suas verdades e se ajoelha diante de Deus."  (MAURÍCIO MELO JÚNIOR)