quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

ZODÍACO / "DEZEMBRO", de Daniel Lima






Dezembro é cântico contido. 
A vontade de ser que se recolhe 
e aguarda o seu momento. 

E na hora de ser ei-lo dezembro. 

       Nascido já maduro, acontecido
dentro, bem dentro de si mesmo posto,
       rosto de Mona Lisa indecifrável
              riso que não sorri,
       olhos que não percebem. 
       (Fingem não perceber
       fingem que sonham 
       mas tudo eles percebem,
tudo eles veem, esses olhos, 
       pelos ouvidos)
Misteriosas coisas de dezembro.   



(Do Calendário e Agenda CEPE 2012
- Ilustração : Foto de Xirumba )



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Transcrito do livro POEMAS, de Daniel Lima 
- Companhia Editora de Pernambuco - CEPE /
Secretaria da Casa Civil /
Governo de Pernambuco, Recife, PE, 2010

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

MIGUEL ARRAES E CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE (Texto de Antonio Callado)






     Arraes não conheceu pessoalmente o poeta Carlos Drummond de Andrade. Mas citou o poeta inúmeras vezes, em discursos, no prefácio que fez, ao voltar do exílio, para a segunda edição do meu livro TEMPO DE ARRAES  : "Quanto ao Brasil, voltamos sempre - e sempre citamos - o apelo de Carlos Drummond de Andrade, no seu "Hino Nacional" :  Precisamos descobrir o Brasil (...) / se bem que seja difícil compreender o que querem esses homens /  por que motivo eles se ajuntaram /  e qual a razão dos seus sentimentos. (...) /  Nenhum Brasil existe. E acaso existirão os brasileiros ?"

     Gosto de imaginar o encontro que não houve entre esses dois homens reservados, de fala cordial e mansa. Drummond tinha muito do sertanejo de Araripe e Arraes podia ter sido criado na paisagem férrea de Itabira. E o traço familiar que une os dois  é, naturalmente, o sentimento do mundo e do lugar que o Brasil tarda tanto a ocupar neste mundo. Não estou exagerando a força desse sofrimento compartilhado, que calou tão fundo em Arraes. 

     Eleito pela terceira vez governador de Pernambuco, em 1994, Arraes pronunciou o belo discurso que é um dos últimos reproduzidos neste volume.  O discurso acaba assim :

     "Ao longo dos tempos, o povo de Pernambuco legou aos brasileiros lições de unidade política e capacidade de trabalho. Saberemos mais uma vez honrar este passado.  Tenho o que tinha antes, ao apresentar-me hoje a esta Casa, pela terceira vez, enriquecido pelo que me deu a vida e pelo que me marcou o destino. Nada além, como ensinou o poeta, do que duas mãos, o sentimento do mundo e a certeza renovada na capacidade do povo em fazer sua História."  



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Fragmento final do prefácio de Antonio Callado para o livro
PENSAMENTO E AÇÃO POLÍTICA, de Miguel Arraes
- Topbooks Editora, Rio de Janeiro, RJ, 1997.