sexta-feira, 19 de março de 2010

Hermilo Borba Filho : "Um doido e a maldição da lucidez"

O poeta é um ser que vive permanentemente em estado de sofrimento por si mesmo e pelo mundo que o rodeia. Quando o mundo atinge a sua zona mais alta de tortura, tanto no estado da lucidez como no das intuições (quase sempre mais válidas), o poeta se contorce como uma salamandra no fogo e canta tragicamente. Por ser mais agudo e perspicaz que as pessoas que o cercam, vê tudo mais além, exacerbadamente, desejando o que não pode e fazendo o que segundo os bons costumes não deveria fazer.

Juareiz Correya é um desses seres e este seu pequeno livro de agora diz fotograficamente, com muita precisão, o que está acontecendo com ele : o poeta está triste e pessimista. Nenhuma esperança em suas palavras. Ele quer chorar e é um direito seu. Mas tenho cá comigo que devemos crer mesmo contra a desesperança e é o que aconselharia ao poeta se me atrevesse a dar conselhos : olhar em volta mais acuradamente, com esse olhar de gavião que os poetas têm mesmo quando se fingem de mortos, e ver que há coisas mais importantes para se cuidar além da própria dor, a começar pelo homem, indigente e desamparado.

Abro o seu livro e leio logo : "Eu acho que nada mais resta / a minha carne é para os cães deste século" ; vou adiante e vejo : "Nem interessa mais figurar minha fantasia de mim" ; e continuo : "De que me serve este amor / como uma chaga aberto ?"; e vai : "O que tens poeta é bem pouco"; desilude-se : "Tu és a mesma longa louca luxenta besta"; e finalmente uma esperança, talvez a única : "A luz que me nasce fecunda a aurora"; mas perde-a : "Eu não sei onde estou & não sei aonde vou"; e seus dois últimos versos são : "eu escrevo como quem pratica crimes perfeitos / sem paz e alegria para esta descoberta inesperada".

Este poeta pessimista é um jovem de quem os jovens (e também os velhos como eu) muito esperam no colorido campo da esperança : resta que ele saia do pesadelo.



HERMILO BORBA FILHO
("Jornal da Cidade", Recife, PE, 1975)

terça-feira, 16 de março de 2010

AMERICANTO : Opiniões de Hermilo Borba Filho, Geneton Moraes Neto, Jaci Bezerra e Paulo Azevedo Chaves

HERMILO BORBA FILHO


"No primeiro instante parece-me que sou fulminado por um raio : revejo-me todo ali, no prefácio de Juarez. E eu, que realizei ou pensei realizar uma enorme catarse em UM CAVALHEIRO DA SEGUNDA DECADÊNCIA, esgotando Palmares, verifico, ao mesmo tempo com uma grande alegria e uma grande dor, que Palmares é a minha marca para toda a vida." (DIARIO DE PERNAMBUCO - Recife, setembro, 1973).




GENETON MORAES NETO


"AMERICANTO é na verdade uma significativa declaração de amor a essa América de todos os campos, gritos, silêncios, sossegos e agonias. Vale a pena ler o trabalho desse jovem poeta, dono de uma linguagem forte e cortante." (DIARIO DE PERNAMBUCO, Recife, 1975)



JACI BEZERRA


"Este livro de Juareiz Correya, que reune produções de várias épocas já publicadas anteriormente - sobretudo em forma de livretos e folhetos em cordel - sendo, no seu conjunto, o discurso de parte de uma vida, a sua, pode ser encarado como representativo de uma fase agressivamente renovadora da poesia brasileira atual : exatamente a que vem sendo imposta pelos movimentos alternativos." (Posfácio de AMERICANTO AMAR AMÉRICA, Nordestal Editora, Recife, 1982)





PAULO AZEVEDO CHAVES



"AMERICANTO AMAR AMÉRICA, de Juareiz Correya, foi quadrinizado, na década passada, por Roberto Portella. O resultado dessa parceria é uma produção inédita na história editorial brasileira." (DIARIO DE PERNAMBUCO, Recife, junho / 1993)


___________________________________________
(do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA
E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20,
Panamérica Nordestal Editora, Recife, 2010)