segunda-feira, 27 de abril de 2009

POEMAS DE "RUMOR DE VENTO"

CONFIDÊNCIA
NO INÍCIO DE TUDO
QUASE MENINA
O POEMA DEITAVA-ME DE BRUÇOS
NO CHÃO FRIO DA VARANDA
COMO SE ME RENDESSE SOBRE
AS CARUMAS DE UM PINHAL :
ESCREVER ERA NECESSÁRIO
E COMPULSIVO.
AGORA
NÃO ME ASSALTA.
NADA ME EXIGE.
CHEGA DE MANSINHO
PÉS DE LÃ
GATO INAUDÍVEL
COCHILANDO SE AQUIETA
NUMA RÉSTIA DE OUTONO.
SE INSISTO E O CHAMO
SE ESPREGUIÇA E DÓI.
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CEIFEIRA
à moda de Alberto Caeiro.
NÃO ENTENDO OS VERSOS
DOS POETAS LITERATOS
QUE HERMÉTICOS
EREMÍTICOS
ERUDITOS
CABALÍSTICOS
SE ESCONDEM ENTRE
CAMPOS MINADOS
CIFRANDO ENTRE SI
OS SEUS RECADOS.
SOU UMA SIMPLES CEIFEIRA :
PELOS CAMINHOS DE ERVAS
PASSO
A COLHER FLORES.
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O SANTO E OS POMBOS
TODOS OS DIAS
AO ALVORECER
À BEIRA-MAR
UM VELHO REEDITA
SÃO FRANCISCO
ALIMENTANDO POMBOS.
NO SÉCULO DA MINHA JUVENTUDE
VI CENA PARECIDA
NA PRAÇA DO ROSSIO.
A IMAGEM POÉTICA
(À ÉPOCA)
MERECIA CRÔNICA
FOTO E POSTAL.
MAS OS VALORES LÍRICOS
ARDERAM POUCO A POUCO
NO TORVELINHO
DA POESIA ABOLIDA.
NESTE SÉCULO
ECOLÓGICO
O GESTO DO SANTO
TORNOU-SE INCORRETO
E OS POMBOS TORNARAM-SE
PERIGOSOS PREDADORES.
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(Poemas do livro RUMOR DE VENTO,
de Maria de Lourdes Hortas,
a ser lançado no próximo dia 7 / maio
no Gabinete Português de Leitura
de Pernambuco)