quinta-feira, 8 de maio de 2014

ASCENSO - O NORDESTE EM CARNE & OSSO, de Juareiz Correya






     ANIBAL TORRES seria apenas "o filho da professora metido o poeta", na cidade pernambucana dos Palmares, onde nasceu e viveu até os 24 anos de idade, escrevendo sonetos parnasianos. Mas ASCENSO FERREIRA, como passou a chamar-se, quando decidiu mudar o nome de batismo - e se registrou com o nome Ascenso Carneiro Gonçalves Ferreira -, iria crescer para além dos limites de Palmares, na região da Mata de Pernambuco, e se tornar um poeta de dimensão nacional, traduzindo, em carne e osso, a telúrica poesia do Nordeste, ao invadir, com a sua originalidade, o Modernismo Brasileiro.  

     A sua ascensão, que atravessou décadas, de forma bem definida, parece ter sido original e unicamente prevista por ele, ao adotar o novo nome - Ascenso -, identificação fácil e própria para, com o sucesso e a popularidade, virar, simplesmente, Ascensão, apelido carinhoso perpetuado entre conhecidos e amigos.  

     O poeta era mais do que um cantor de sua terra, o Nordeste. Era o verdadeiro menestrel moderno, símbolo de tempos novos, antimodelo, antiartista, de vozeirão e tipo assombrosos, uma figura avantajada em todos os sentidos, mais retrato de senhor-de-engenho abastado do que de boêmio e poeta popular, que reinventou a poesia do Nordeste ao escrevê-la e recitá-la.  À frente do seu tempo, Ascenso foi o primeiro poeta brasileiro a gravar os seus poemas em disco, e também um precursor da geração mimeógrafo, dos poetas marginais, alternativos e independentes : ele mesmo vendia, de mão em mão, os seus livros e discos.

     Ascenso foi uma espécie de santo de casa que fez milagre, até ele mesmo reconhecia isto.  Pernambuco, o Nordeste e vários Estados brasileiros tiveram o privilégio de conviver com a sua figura mítica e desmistificadora, um poeta autêntico, verdadeiramente importante, sem pose e posses, e sem qualquer frescura.  Ainda hoje seu nome e sua vida têm sabor de lenda e sobre ele se contam e recontam as mais incríveis, engraçadas e absurdas histórias.  Lírico, folclórico, piadista, mulherengo, grosseiro, ingênuo, político, menestrel, provinciano, cabra de engenho, cosmopolita, catimbozeiro, dançarino, depravado, amigo, companheiro, doce, irmão, maldito, anjo, demônio, vagabundo, chapa de Getúlio, Juscelino e Arraes, comerciante, camelô de poesia, comedor e bebedor na vida, grande, graúdo (só não entrou no céu por causa do tamanho), Ascenso, Ascensão.  O homem e o poeta foram eternamente um só. Ascenso era, mais do que ninguém, genuinamente ele mesmo.  Outro como Ascenso, diria a sua companheira, Maria de Lourdes Medeiros, lembrando o que foi dito em relação a Chopin (de que só nascia um Chopin de cem em cem anos), "vai custar mais de cem anos pra nascer".   (JUAREIZ CORREYA) 




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Apresentação do livro ASCENSO, O NORDESTE 
EM CARNE E OSSO - Perfil Biográfico do Poeta 
Ascenso Ferreira -  2a. edição  -  de Juareiz Correya 
(Edições Bagaço / Nordestal Editora e Produções Culturais, 
Recife, PE, 2001)  

quarta-feira, 7 de maio de 2014

A RUA DO RIO (PALMARES), poema de Ascenso Ferreira





No começo da rua 
Morava Agostinho - o aleijado -
A quem o povo acusava de alimentar-se de coisas imundas : 
- Bichos mortos apanhados nos fundos dos quintais ! 

Fronteiro a ele morava o pedreiro Manuel Belo, 
Que por ter sido mordido de cachorro da moléstia, 
Quando falava com a gente avançava como um cão ! 

No meio da rua morava a celebérrima preta Inês. 
Catimbozeira "afamanada", 
Sempre às voltas com sapos e urubus ! 

Na outra ponta morava a mulata Filomena, 
A quem um jacaré acuou dentro de um banheiro no rio. 
E que saiu nuinha pela estrada afora, 
Gritando : "Me acudam ! Me acudam !" 

Mas nem tudo, na Rua do Rio, 
Era infâmia, nojo, abominação ! 

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Na outra ponta da rua, 
Bem nos fundos do quintal da casa de minha mãe, 
Morava o fogueteiro Lulu Higino, 
Que no silêncio das noites consteladas, 
Arrancava da flauta uns acordes tão suaves, 
Que até parecia serem as estrelas lá no céu 
Que estavam tocando... 


(Do livro "Xenhenhém", inédito incluído na primeira edição
da  poesia reunida de Ascenso Ferreira - POEMAS,
 edição de luxo, Rio de Janeiro, RJ, 1951)


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Transcrito do livro POEMAS DE ASCENSO FERREIRA  
- 5a. edição - Nordestal Editora, Recife, PE, 1995.