segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

ATO DE NATAL, de Hermilo Borba Filho

Quando a trupe chegou o tomara-que-não-chova ainda não estava armado, mas foi obra dum instante e o cirquinho logo rodeado de tudo quanto era menino da zona se viu, anunciando a Pantomima do Nascimento, que já se estava no dia vinte e quatro, bespa do vinte e cinco, para a noite a pantomima para o dia a Nova-Maior, tomem cantos e danças e passas e doces até na casa dos pobres, perus de papos recheados em casa dos magníficos; e no cirquinho, às seis, Bitom o Palhaço, na casa dos sessenta, chegou, postou-se diante do espelho quebrado, começou a pintar a cara, às sete terminou com cinquenta; às oito, tomando uma cachaça, estava com quarenta - era aquilo todos os anos, na noite do vinte e quatro para a aurora do vinte e cinco - entrou no picadeiro, às nove, com trinta; às onze, diante do espelho, era Bitom o Palhacinho, com dez; tirou a tinta, foi caminhando para a infância, os artistas abriram alas, ele foi andando e ficando mais menino, atravessou o picadeiro e desapareceu atrás das cortinas, a Trapezista nova perguntando ao Mestre-de-Cerimônias : Para onde ele vai ?, ao que o Mestre-de-Cerimônias, fazendo uma cara de espanto, respondeu-lhe meio áspero, meio gozador : Oi, não sabe ?, Ele vai nascer.



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Do livro AS MENINAS DO SOBRADO,
Editora Globo, Porto Alegre, 1976)

NATAL, de Manuel Alegre

Acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.
Era gente a correr pela música acima.
Uma onda uma festa. Palavras a saltar.

Eram corpos ou mãos. Um soluço uma rima.
Guitarras guitarras. Ou talvez mar.
E acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.

Na tua boca. No teu rosto. No teu corpo acontecia.
No teu ritmo nos teus ritos.
No teu sono nos teus gestos. (Liturgia liturgia)
Nos teus gritos. Nos teus olhos quase aflitos.
E nos silêncios infinitos. Na tua noite e no teu dia.
No teu sol acontecia.

Era um sopro. Era um salmo. (Nostalgia nostalgia)
Todo um tempo num só tempo : andamento
de poesia. Era um susto. Ou sobressalto. E acontecia.
Na cidade lavada pela chuva. Em cada curva
acontecia. E em cada acaso. Como um pouco de água turva
na cidade agitada pelo vento.

Natal Natal (diziam). E acontecia.
Como se fosse na palavra a rosa bravia
acontecia. E era Dezembro que floria.
Era um vulcão. E no teu corpo a flor e a lava.
E era na lava a rosa e a palavra.
Todo o tempo num só tempo : nascimento de poesia.


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Do blog ESPAÇO DE ANABELA
(http://1-anabela.spaces.live.com) /
Produção e realização de Anabela de Araújo.
Acesse o site do poeta português Manuel Alegre
(http://www.manuelalegre.com)

domingo, 20 de dezembro de 2009

A FESTA, de Ascenso Ferreira



O altar armado da igreja à porta,
Tão lindo como nunca vi,
Cheirava a cravos, cheirava a rosas,
Cheirava a flor do bogari...

As barraquinhas adornadas
Com lanternas de muitas cores
Vendiam coisas cheias de odores
Broas, pastéis, doces, geladas,
Jenjibirra, abacaxis...

Um pouco abaixo o cosmorama,
Onde espantado a gente via,
Quadros de guerras encarniçadas
Vistas de terras encantadas,
-Terras de Oropa, França e Baía...

A gente ia pro carrossel,
Nos seus cavalos esquipar !
O realejo triste gemia,
Mas, dentro em nós quanta alegria,
E, quando o carrossel se ia,
Ai ! que tristeza de matar !

Ganhava a gente roupas novas,
Novo sapato, novo chapéu,
E tudo, nossos pais compravam,
Com um carinho especial,
Nada de Papais Noéis !
Nada de árvores de Natal !

Sinos tocavam dentro da noite,
Fogos subiam riscando o céu !
Jesus brilha de luz num halo
- "Meia-noite canta o galo
dizendo : - "Cristo nasceu !"

Hoje tudo broma, falsete,
Não sendo para admirar,
Que o rádio diga sobre o presepe,
Que Cristo estava "up-to-date"
E Nossa Senhora "very kar..."

Minha filhinha, Papai Noel,
É uma figura tragicômica !
Não te iludas com seus enredos
Pois que no meio dos seus brinquedos
Virá um dia a bomba atômica !

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O altar armado da igreja à porta,
Tão lindo como eu nunca vi,
Cheirava a cravos, cheirava a rosas,
Cheirava a flor do bogari.




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Do livro inédito "Xenhenhém",
incluído na edição de luxo de
POEMAS (1951), junto com os livros
publicados "Catimbó" (1927)
e "Cana Caiana" (1939).

POEMA DE NATAL, de Reginaldo Veloso



É Natal !
Acordem José,
acordem Maria,
acordem o Menino !
Acordem todas as sagradas famílias
dos oprimidos da Terra !
Herodes está por todo canto
e já não há como fugir.
É hora de juntar o pessoal,
aqui e agora,
e começar a plantar
o roçado de todos
e instalar a oficina do povo
e levantar a mansão dos irmãos
para que o alegre anúncio dos anjos
aconteça !


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(do livro inédito
REGINALDO VELOSO,
A RESISTÊNCIA DA IGREJA DO POVO,
organizado por Binna Mariano)